Um sábado do jeito que eu gosto

Como há muito não acontecia, eu tive nesse final de semana de bank holiday (o último antes do Natal) dois dias inteiros de folga. Claro que isso só foi possível porque a minha chefa viajou para a casa do irmão dela no interior. Sozinha em casa, sem compromisso e sem companhia disponível, decidi curtir um sábado gelado de sol do jeito que eu gosto: com coisas de Talita =)

Tudo começou na National Gallery, onde passei para pegar o ingresso de um tour especial que eu faria mais tarde. Mas, como o tour só começaria em uma hora e estava frio pra burro , decidi dar uma volta por ali, para dizer oi aos meus queridos amigos Caravaggio, Vermeer, Goya e Gainsborough. Sabe, isso é uma das coisas que eu mais gosto na Europa, a acessibilidade à arte, em qualquer hora que você quiser, de graça e em diversos cantos da cidade.

E fiquei ali, sentada, apreciando “The Taking of Christ” do Caravaggio. Ao meu lado, vejo um homem explicando algo para sua mulher em francês e, apesar de não entender seu idioma (por enquanto), entendo o que ele quer dizer. Sua mão faz o contorno do fundo escuro que envolve a cena – marca tão típica de Caravaggio e ele está explicando como a escuridão é harmoniosa ali, e como a luminosidade se faz presente apenas no centro da tela, nas cores vivas presentes nas vestimentas, nos rostos e da lâmpada que o personagem do canto segura (e leio que ele é um auto-retrato do próprio Caravaggio, e também descubro ali que seu primeiro nome é Michelangelo ^^). Eu sorrio, lembrando que esse é o tipo de coisa que o meu pai faria se estivesse ali comigo. E sinto uma falta tremenda dele, como sempre acontece quando vou à uma exposição de arte.

Maravilhada com tudo aquilo, saio e vejo um dia diferente. Ou talvez eu esteja diferente após aqueles longos minutos na presença do Caravaggio e das lembranças do meu pai. No caminho para o tour, vou fotografando as ruas cheias de prédios georgianos daquela região, como se eu nunca tivesse feito isso antes.

E chego no destino do tour, o prédio do governo da Irlanda, gabinete do Taoiseach – primeiro ministro. O prédio é lindo e protegido por um portão que está sempre fechado, com guardas e sua guarita gigantesca. Mas nesse dia aquelas portas se abriram para mim e me senti completamente privilegiada por estar ali =)

A guia começa contando a história do prédio, que foi iniciado pelo rei inglês Edward VII em 1904 com o objetivo de ser utilizado como sede do Royal College of Science, motivo pelo qual estátuas de cientistas famosos estão presentes na fachada. Mas, com a independência da Irlanda em 1922, os parlamentares cresceram o olho para o prédio e expulsaram os estudantes pouco a pouco e, finalmente, o prédio foi convertido apenas para uso governamental. Hoje em dia, funcionam por lá os seguintes departamentos: Department of the Taoiseach (primeiro ministro), Office of the General Attorney (o consultor do governo em matéria de leis), Department of Finance e Department of Public Expenditure and Reform.

Foi muito interessante descobrir como funciona de verdade o sistema de governo irlandês e, por incrível que pareça, ele é muito parecido com o inglês! O presidente da Irlanda é como a rainha da Inglaterra – uma figura pública, importante e respeitada, mas sem muito poder político. O primeiro ministro é o verdadeiro chefe político do país, que manda e desmanda. E os membros do parlamento são muito importantes também, divididos nas casas denominadas “Dáil Éireann” (Lower house) e “Seanad Éireann” (Upper house). Aliás, a guia contou um fato curioso sobre eles! A sala do primeiro ministro tem uma saída especial que dá em uma rua muito próxima a onde é o parlamento pois, caso o ministro seja convocado – um sino toca se isso acontecer – ele tem apenas dez minutos para comparecer lá, independente de qualquer compromisso que tenha! >.<

O tour é bem legal, no geral. Passamos por salas de reunião, escadarias, salas de prêmios e, o ponto alto, a sala do primeiro ministro, com sua mesa, seu telefone, sua poltrona, seu porta-canetas. Óbvio que só podemos acessar uma área reduzida lá dentro e existem guardas nos vigiando o tempo todo. Mas, mesmo assim, é muito impressionante.

Já que estava por ali e o sol estava quentinho, fui dar um passeio na Merrion Square, que eu sempre gostei e pouco visitei. E ela estava mais bonita que nunca! Algumas árvores mudando do verde para o vermelho e amarelo, outras apenas com meia dúzia de folhas marrons e o chão completamente forrado de um tapete macio e barulhento de folhas secas. A luz do sol batendo naquelas folhas amareladas na copa das árvores é um efeito maravilhoso de se ver!

E, então, sem procurar (como eu já havia feito antes, sem sucesso), encontrei a estátua do Oscar Wilde, famoso escritor irlandês e estudante ilustre do Trinity College, o gênio por trás da obra “O Retrato de Dorian Gray”, que eu tanto gosto. E ele, assim como eu e os demais por ali, estava aproveitando o sol quentinho naquele dia gelado ^^

Ainda fotografando a cidade como se eu fosse uma recém-chegada turista, resolvi passar no Temple Bar para comer alguma besteirinha no maravilhoso Food Market que eu já comentei por aqui. Optei por uma torta de frango, presunto e salsinha, de uma barraquinha de comida de fazenda que eu namorava há tempos! E a trilha sonora estava espetacular… O fato de sempre ter música rolando é uma das coisas mais legais do Temple Bar, seja uma moça com espanhola mandando ver no violão ou um cara parado na esquina, o maior vozeirão do mundo, mandando “Feeling Good” do Muse a plenos pulmões, o que me congelou a espinha.

O último compromisso do dia era super especial. Acontece que nesse final de semana rolava na cidade o “Bram Stoker Festival” por causa do Halloween, já que o Bram Stoker – famoso escritor irlandês, é ninguém menos que o autor do “Drácula”. Dentre diversos eventos espalhados pela cidade, eu escolhi um dos mais incríveis (na verdade, um dos únicos que ainda tinha vagas disponíveis =P), uma contação de trechos do livro e outras histórias de vampiros, na cripta medieval da Christ Church, minha igreja favorita de Dublin ^^

E lá chego eu, naquela cripta com cheiro de mofo, luz amarela, peças magníficas, e me aconchego junto às demais pessoas estranhas como eu, que estão desperdiçando a rara luz do sol para se enfiar em uma cripta e ouvir histórias de vampiro. E você percebe como o seu listening está bom quando você consegue entender tudo o que a mulher está lendo, mesmo se tratando de diálogos em uma obra escrita em 1897. Foi muito especial. Todas as pessoas mergulhavam em cada palavra, naquele cenário tão propício para aquela história, imaginando as cenas contadas. E está decidido, assim que eu voltar ao Brasil começo a ler esse livro, mesmo já tendo visto o filme milhares de vezes =)

Tomo o caminho da roça para o meu adorável bairro, no fim de um adorável dia frio e finalizo a noite com uma nada adorável pasta com molho branco e atum (é, cozinhar só para você é um desafio, já que a preguiça é mais forte que tudo!) e uma Belfast Ale, na companhia do meu namorado e conselheiro de viagens, me ajudando a resolver as buchas intituladas “Alemanha e Polônia” que eu acabei me enfiando =X

P.S. No domingo, organizei coisas pela manhã e fui almoçar com a Aline no apartamento dela. Como sempre, fizemos a deliciosa batata de forno que a mãe dela ensinou, com vinho e bolo de chocolate de sobremesa. Chegando em casa, após o conselho esperto do meu namorado, finalmente resolvi o dilema da viagem na Alemanha e Polônia e, mais tarde, passei o resto da noite na companhia dele, mesmo longe s2

P.S. E hoje, segunda-feira de bank holiday, fiquei de preguiça na cama até que a chefa voltou da viagem e, imediatamente, já comecei a trabalhar cuidando do meu pequeno, que levei para Howth, pegando FOUR BUBZEZ!!!!!, o que o deixou extremamente feliz (^^). No final da tarde (porque aqui se janta cedo), fomos jantar na casa da mamis da Mary Rose, a Rosemary (mesmo nome da minha mamis), com “chicken cassarole, potatos and brocolis” como prato principal e bolo de sobremesa. Foi muito legal, me senti como tendo um jantar na casa dos Dursleys (os tios do Harry Potter), com sua porcelana bonita, a manteiga na mesa, toalha de renda e licor para finalizar o jantar =)

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World Street Performance Championship

Olá!

Acabo de chegar de um evento que está rolando neste final de semana, o World Street Performance Championship, um campeonato de performances de rua.

Dublin, como toda grande cidade, tem suas ruas principais como palco de artistas de rua mostrando a sua arte por alguns trocados. Então, surgiu a ideia de criar esse campeonato, com artistas do mundo todo se apresentando.

O evento foi realizado na Merion Square, uma praça linda e gigante, contornada por prédios georgianos. Por lá, além das atrações, haviam brinquedos para as crianças [e adultos bobos como nós], barraquinhas de comida, cachorros, famílias, crianças lindas e ruivas.


Assistimos um cara dos Estados Unidos fazendo malabares e tocando teclado com as bolinhas, um cara do Canadá muito bom fazendo o melhor Beat Box que já vi na vida e um casal da Hungria fazendo contorcionismos. Muito legal =)

Para acompanhar, compramos pão, croassaint de chocolate, queijo brie, queijo tipo “poleguinho” [*___________*] e salame, com vinho [e Sprite para a Marion]. Quer almoço melhor que esse?

Já em casa, fizemos nosso último risoto juntas, pois esse é o último domingo da Marion. Sim, era de cogumelos, estava muito bom e estou muito triste porque ela vai embora =(

Agora, descansar para começar tudo de novo ^^
Até mais!

P.S.: Estou fazendo uma lista de passeios intitulada “Dublin 2.0”. Sim, esse marasmo dos finais de semana vai acabar, ah vai.

P.S.: Muitas novidades vindo por aí, que eu ainda não quero contar =)

O quarteirão da elegância

Hello!
Como estão?

Por aqui, tudo indo bem! Estamos nos adaptando maravilhosamente bem na casa nova, cozinhando, lavando roupa, estudando, conhecendo lugares, quase tirando o visto. Tudo bem graças a Deus, às orações dos meus avós e ao pensamento positivo e força de vocês =)

Hoje, depois de alguns dias sem conhecer nada da cidade, visitamos dois lugares muito legais, em uma região que já foi a mais nobre de Dublin, residência da alta sociedade, políticos e escritores. Com vocês, a região da Merrion Square!

Fitzwilliam House: uma viagem no tempo

O século 18 foi a Era da Elegância, quando os ricos da Irlanda, não querendo parecer os parentes pobres da Inglaterra, fizeram de Dublin uma das cidades mais elegantes da Europa. Todos os ricos construíram suas casas na mesma região, o que fez (e faz) com que ela seja extremamente charmosa.

O padrão das casas era sempre o mesmo, os chamados terraços georgianos. Na década de 60, dezesseis dessas lindas casas foram demolidas para que a empresa de eletricidade de Dublin construísse a sua sede. A indignação pública foi tamanha que, para tentar remendar o estrago, a empresa restaurou uma das casas e criou um museu, o famoso número 29 da Fitzwilliam Street Lower. Ainda bem que eles fizeram isso =)

O museu é a portinha preta =)

A casa é maravilhosa. Por fora, aquela famosa portinha colorida, com uma detalhada clarabóia e aldrava de metal. No andar inferior (abaixo do nível da rua), fica a recepção do museu, loja e as primeiras partes da exposição, como cozinha, quarto da empregada, despensa de alimentos. No primeiro andar (nível da rua), temos a sala de jantar – que é o maior ambiente da casa – com os móveis, louças, lustres e tapetes. No segundo andar, temos a sala de visitas, com piano, mesa de jogos e livros – um ambiente destinado a diversão e recepção de convidados. No terceiro andar, temos o aposento do casal – cama, banheiro (sem chuveiro, claro), sala de vestir. No quarto andar, temos o quarto da governanta e o das crianças, com casinhas de bonecas do século 18 #Morri.

Anexo do quarto do casal

Sala de estar

 

Cozinha

Casinhas de bonecas *____________________*

Fatos curiosos

– Cada cômodo da casa tinha um puxador de tecido perto da parede, que era ligado a sinos na cozinha. Assim, quando a dona da casa queria falar com a empregada, acionava o sino e a ela sabia em que cômodo deveria ir.

– Quem já foi em museus antigos deve ter percebido como as camas são curtas. Descobri hoje que isso se deve ao fato de que as pessoas dormiam meio sentadas, pois tinham problemas de coluna!

– Os ratos podem escalar e fazer buracos nas paredes, mas não podem pular. Por esse motivo, as comidas mais preciosas (ovos, queijos, carnes, pão) eram armazenadas em uma tábua suspensa do teto, na despensa.

– As mulheres acreditavam que ficar muito tempo perto da lareira prejudicava a pele de seus rostos. Assim, elas tinham uma espécie de protetor contra o calor – meio que uma pá ao contrário, com desenhos e bordados – que ficava apoiado no chão, perto de onde elas estavam sentadas.

 

Merrion Square: onde é sempre primavera

De lá, fomos para a Merrion Square, uma das praças mais charmosas de Dublin. Naquela época as casas não tinham jardim mas, como estavam localizadas próximos de belíssimas praças, elas acabavam sendo utilizadas como jardins e, em certa época, passaram a ser privadas para os moradores da região.


A Merrion Square foi projetada em 1762 por John Ensor. Ela fica rodeada por inúmeras casas georgianas (hoje sendo utilizadas como sede de empresas e escolas, na sua maioria) e imponentes museus (Natural History, National Gallery).

Lá dentro, tudo é uma graça. Eu não sei se é sempre assim ou se é a primavera que enche os meus olhos, mas me senti em um bosque de conto de fadas lá dentro! Canteiros de flores, árvores cheia de flores cor-de-rosa (as minhas favoritas), mamães com crianças, casais apaixonados. Apaixonante =)

Cores, aromas, flores

 

A minha favorita *_____*

Tem coisa mais romântica do que essa flor?

E foi isso por hoje. O final de semana promete passeios memoráveis, vamos ver se dá certo.

P.S.: Tenho uma novidade, mas só vou contar se der certo. Sei lá, não quero criar muitas expectativas sobre isso.

P.S.: Como eu penso em algumas pessoas visitando todos esses lugares incríveis. Família, amigos, namorado. Vocês estão comigo o tempo todo s2

Até mais!