O domingo das coisas que acabam

E, quando você menos espera, chega a hora de começar a dizer adeus. Era o nosso último domingo juntas, com o nosso último tour de um dia pelas terras místicas da Irlanda. Entre uma parada e outra, íamos comentando sobre como o tempo passa rápido e, ao mesmo tempo, não. Poxa, não foi ontem que chegamos aqui? Ah, mas vai ser tão bom rever a família que não vemos há 15 anos!

O destino da nossa última aventura foi o condado de Cork e, como ele fica do outro lado do país, o nosso dia começou às 5h30 da manhã, com as duas tentando se arrumar em silêncio para não acordar as outras meninas do apartamento, preparando lanches, enchendo garrafas de água e enfiando bolachas na mochila. Ainda estava escuro, estava frio e estávamos atrasadas, então pegamos um táxi para o lugar de onde o tour sairia – o escritório de turismo (que é instalado dentro de uma igreja gótica *___*) na Suffolk Street.

Entramos no ônibus, pegamos os assentos da frente para ter uma boa visão do caminho e vamos para a estrada! Ops, quase. O motorista diz que esqueceu seu celular em casa e precisará passar por lá para pegá-lo. Cerca de 20 minutos depois chegamos na estrada, agora para valer! E, quase que imediatamente, pegamos no sono =P

Duas horas depois, o sol já raiava e o motorista começou a cantar uma música para acordar a gente. Dia lindo, fiquei entusiasmada! E ele ia contando tudo sobre o condado de Tipperary, que estávamos atravessando agora, com paisagens bonitas, algumas montanhas no fundo, poucas árvores, uma ou outra casinha velha. E ele falou tanto, mas tanto, que eu peguei no sono de novo =P

Quando acordei, pensei que tinha dormido por 24 horas e acordado em outro dia. Cadê o sol? De onde veio essa chuva? Ah, deuses pagãos da Irlanda, não brinquem comigo! Paramos para um café em um posto de gasolina e logo seguimos viagem novamente. E eu resolvi dormir, para tentar ignorar os pesados pingos de chuva que caiam na janela. Quem sabe, quando eu acordar, o dia ensolarado não volta?

Mas ele não voltou e, meia hora depois, chegávamos no Blarney Castle, o primeiro destino do tour. A minha vontade era ficar no ônibus. Mas comecei a pensar que, sem a chuva e o vento, a experiência não é tipicamente irlandesa. Então, só tomando cuidado para proteger a máquina fotográfica, encarei mais um dia de chuva e vento na cabeça. (Oi, Rússia! Estou no treinamento intensivo para encarar o seu inverno ¬¬)

O Blarney Castle é um castelo medieval localizado no condado de Cork, sul-oeste da Irlanda. Sua primeira estrutura era de madeira, construída em 1200 e logo substituída por uma em pedra em 1210, que foi destruída também depois. A estrutura que vemos hoje data de 1446, a terceira versão do castelo, construído por Dermot McCarthy, rei da província de Munster.

A história do seu nome é engraçada e vem da época da rainha inglesa Elizabeth I, que enviou o conde de Leicester para tomar posse do castelo. McCarthy, muito esperto, tentava evitar a briga de qualquer forma e sempre sugeria banquetes e recepções para negociar a questão, que sempre ia ficando para depois. Quando a rainha questionou como estava o progresso da posse, o conde enviou um longo relatório que não dizia nada, dando várias desculpas. Diz-se que isso irritou tanto a rainha que ela começou a se adjetivar aos relatórios do conde como “Blarney”, que é bajulação em português. E o nome pegou =P

Mas, finalmente, a Inglaterra conseguiu a posse do castelo, quando as forças de Cromwell chegaram à Irlanda detonando tudo o que viam pela frente. Tudo bem, eles podem ter ficado com o castelo, mas os irlandeses foram mais espertos. Por meio de passagens subterrâneas, antes que os ingleses invadissem a fortaleza, eles fugiram para Cork e Kerry, levando os tesouros e todo o ouro ali armazenado.

Anos depois, o castelo foi vendido para Sir James St. John Jefferyes, o governador de Cork, e depois de sua morte, ele foi herdado por seu filho. Após seu casamento com Lady Colthrust, eles construíram uma casa em estilo gótico, próxima ao castelo, e para lá se mudaram. E, até hoje, os descentes da família Jefferyes-Colthrust vivem por lá.

Apesar do dia chuvoso e frio, foi muito incrível poder conhecer aquele lugar. E, talvez, por causa do frio, eu ficava o tempo todo pensando na condição de vida daquelas pessoas, que viviam esse clima ruim na maior parte do ano, sem roupas adequadas, sem aquecedor, sem guarda-chuva. Ao andar por aquelas escadas estreitas de pedra, passando por janelas que deixavam aquele vento cortante entrar, eu imaginava os moradores do castelo naquela mesma situação. Como essa gente sofria na vida! >.<

É, o Blarney é um verdadeiro castelo medieval. E eu gosto tanto de histórias medievais! Sempre foi o meu tema favorito: castelos, princesas, cavaleiros, espadas, batalhas. Como eu me sinto sortuda por poder pisar em solo onde tudo aquilo aconteceu de verdade e sentir aquela sensação familiar, aquela nostalgia, aquela poesia, parando para pensar se alguma princesa já parou para admirar a vista da mesma ameia que eu parei. Emocionante.

Apesar de toda a arquitetura e magia do castelo, o que atrai mais visitantes, na verdade, é a Blarney Stone, pedra “mágica” alocada nas ameias do castelo. De acordo com a lenda, quem beija a pedra é concedido com o dom da eloquência. Sua história faz parte da mitologia irlandesa, que diz que McCarthy, o querido construtor do castelo, estava envolvido em um processo legal (sim, mesmo naquela época!) e apelou para a ajuda da deusa pagã Clíodhna. Ela ordenou que ele beijasse a primeira pedra que encontrasse no caminho à corte, o que ele fez e o trouxe o dom da eloquência, com o qual ele pode se defender bem no caso e ganhar a ação. Se a lenda é verdade ou não, não dá para saber. Mas existem registros que dizem que a pedra foi instalada nas ameias no castelo em 1446, onde está até hoje.

Para beijar a pedra, você sobe ao topo do castelo, deita no chão e o assistente te segura pela cintura, enquanto você segura as barras laterais e desce metade do corpo de ponta cabeça. É totalmente seguro – hoje em dia. Antigamente, não havia proteção e as pessoas eram seguradas pelos tornozelos para conseguirem beijar a pedra! E era tão perigoso que serviu de inspiração para uma das histórias de Sherlock Holmes, em que ele investiga a morte de um homem que caiu ao beijar a pedra, como um suposto acidente que na verdade foi assassinato. De acordo com os organizadores, milhões de pessoas já beijaram a pedra, incluindo artistas de cinema, gigantes da literatura e políticos, como Winston Churchill.

E, bem, eu beijei a pedra. Fiquei com medo quando eu deitei, porque o homem foi me jogando pra trás, sem aviso! Mas, encarei, fiz um biquinho e beijei a pedra molhada de chuva. É muito rápido e eles não deixam que ninguém fotografe direito, porque querem vender a foto que eles mesmos fazem, a 10 euros (negócio é negócio, não tem jeito!) Mas foi legal! Vamos ver se o dom da eloquência se manifesta agora =)

Voltamos para o ônibus e, comendo nossos sanduíches, nos dirigimos para a próxima parada, a cidade de Cork. O motorista não parava de falar, sobre o tempo, sobre St. Patrick, sobre pubs, sobre o trânsito, sobre o ônibus, sobre suas sobrinhas. Comecei a pensar que ele beija a pedra todas as vezes em que vai lá >.<

Cork é a segunda maior e mais populosa cidade da Irlanda, com 120 mil habitantes (aliás, sabia que Dublin concentra mais de 25% da população do país? o.O). Ela é famosa pelo sotaque praticamente impossível de entender de seus habitantes, fato comprovado quando a atendente da loja em que estávamos veio perguntar se precisávamos de ajuda. Como estava frio, chovendo e a cidade não tem muitos atrativos, acabamos só dando uma volta pelo centro, nos aquecendo dentro de lojas =P

Voltamos para o ônibus, para o último destino do tour, a Rock of Cashel, que são ruínas de um monastério localizadas no topo de uma colina na cidade de Cashel, condado de Tipperary. A essa altura, o tempo já estava mais feio e frio mas, nessa parte, eu posso dizer que isso fez toda a diferença para o aproveitamento do passeio!

A história da Rock of Cashel começa com a lenda de quando St. Patrick baniu o demônio de uma caverna, deixando-o muito bravo e fazendo com que ele “mordesse” o topo de uma colina. Com isso, o demônio quebrou um dente e, com a dor, deixou cair o pedaço mordido em Cashel, que é a colina onde o monastério foi construído. O lugar é famoso por ter sido onde St. Patrick converteu o então rei do Munster, no século V.

Aliás, acho que eu nunca comentei sobre a vida de St. Patrick, o padroeiro da Irlanda. Bem, ele não era irlandês e sim inglês e, quando tinha apenas 16 anos, foi raptado e trazido para a Irlanda para trabalhar como escravo cuidando de ovelhas. Nos seis anos em que viveu como escravo, ele começou a questionar a religião pagã e, um belo dia, uma voz o disse em um sonho onde ele encontraria um navio para voltar para casa. Deu certo e, depois disso, ele se converteu ao cristianismo e virou padre. Anos depois, a mesma voz o diz para voltar à Irlanda e converter aquele povo pagão adorador da natureza.

E ele foi bem sucedido, após muito trabalho! Diz-se que ele usava um trevo de três folhas para explicar a tríade do “Pai, Filho e Espírito Santo”, o que explica porque esse é um símbolo tão forte aqui na Irlanda. Existe ainda a lenda de que ele expulsou as cobras da Irlanda, motivo pelo qual não se encontra nenhuma por aqui. Mas muita gente não concorda com essa, argumentando que nunca houveram cobras por aqui e que, na verdade, as cobras são um uma forma de simbolizar o paganismo. Sendo verdade ou não, ele foi muito importante para a história da Irlanda! E o dia de sua morte, 17 de março, é celebrado no famoso St. Patrick’s Day =)

Voltando a falar da Rock of Cashel, ela nem sempre foi um monastério. Antes mesmo da invasão anglo-normanda, por ali já havia uma fortaleza no topo da colina, utilizada como residência de reis do Munster por muitos anos. Foi apenas em 1.101 que o prédio passou para as mãos da igreja, quando o então rei do Munster, Muirchertach Ua Briain, fez uma doação.

Muito pouco da estrutura original permanece mas, de qualquer forma, a maior parte dos prédios do complexo religioso data do século 12 e 13. Raro, muito raro. Em 1749, o principal teto da catedral foi removido pelo Arcebispo Anglicano de Cashel, talvez em uma tentativa de destruir um tesouro católico que sobreviveu ao tempo e a guerras. Ele é criticado até hoje por isso. Concordo. Mas, na minha opinião, a catedral sem o teto fica mais misteriosa e assustadora ainda!

Um respeito amedrontado. Acho que isso pode resumir o que eu senti ali, naquelas ruínas, com a chuva caindo, o vento forte soprando, o dia cinza, a neblina. Parecia que, a cada canto em que eu virava, ia encontrar um monge medieval rezando. Sensação que foi acentuada no momento em que me vi sozinha no cemitério dos fundos da igreja, quando a chuva apertou, a pouca luz do sol sumiu, e tudo ficou estranho. Saí correndo, mas antes bati essa foto, que retrata bem o momento.

Molhadas, geladas, cansadas, voltamos para o ônibus e, por mais três horas, nosso amigo motorista foi falando e a gente foi dormindo. Eu sonhava com cruzes e com o Muse, até que acordei e vi que estávamos em Dublin. E, pouco tempo depois, eu dava tchau para a Aline, tchau para o nosso último dia de passeio juntas. É, o tempo passa rápido.

P.S. Mas não estou reclamando! Eu quero mesmo é voltar para a minha família, o mais rápido possível =)

Ideias genias X Coisas estranhas

Um dos objetivos de qualquer intercâmbio é descobrir uma cultura nova, fazendo parte do seu dia a dia, para você chamar de sua. E, com isso, você descobre muitas coisas boas, mas também muitas coisas ruins.

Nesses 7 meses de Irlanda, me sinto maravilhada com algumas coisas. E completamente enojada com outras. Acho que isso é normal e interessante. Te faz valorizar muita coisa que você tem no seu país, na sua família. E te faz ter ideias para aperfeiçoar a sua vida, quando você voltar.

Pois bem, a minha lista está feita. Olhem só!

Ideias geniais

Sorvete com bolacha
O tipo mais popular de sorvete por essas bandas é tipo um tijolo de sabor creme que você fatia e serve entre duas bolachas waffle (empacotadas à parte, para não murchar). Simples, delicioso, diferente, perfeito para servir em casa. Ô Unilever, faz o favor de trazer essa delícia para o Brasil?

Mas tem um picolé também, o Iceberger, composto por duas bolachas de chocolate recheadas por sorvete de creme. É uma delícia, mas a bolacha fica murcha, motivo pelo qual eu acho que não seria bem recebido no Brasil, já que somos tão acostumados à uma comida impecável e saborosa. Quando comi, imaginei o meu pai dizendo “presta não, olha que ruim essa bolacha murcha!” =P

Kettle
Uma chaleira elétrica, maravilhosa, tudo de bom, que ferve água em um minuto! Você põe a água, aperta o botão e pronto! Água borbulhante, pronta para cozinhar, fazer chá, as unhas e o que mais você quiser. Se sobrar espaço na minha mala, eu levo uma dessas para casa, ah levo ^^

Duvet cover
A ideia mais genial de todas do mundo: um edredom de capa removível! Você compra o “miolo”, que é o que esquenta e quantas capas quiser! Assim, pode lavar a capa de maneira fácil, já que ela é como um lençol e ainda pode trocar a estampa sempre que enjoar! Maravilhoso =)

Ônibus inteligentes
Na maioria dos pontos de ônibus você encontra um letreiro com o horário previsto de chegada de todos os próximos ônibus. Além disso, a empresa de ônibus tem um site e um aplicativo para iPhone em que você pode consultar todas as rotas, caminhos e horários. E, mesmo com todas essas maravilhas, os ônibus nunca ficam cheios. É, acho que vai ser difícil me acostumar com o transporte público de São Paulo depois disso ¬¬

Coleta de lixo
Nas áreas residências a coleta de lixo funciona assim: cada cidadão recebe três latões de lixo, um verde, um marrom e um cinza. No verde, devem depositar tudo o que é reciclável. No marrom, tudo o que é orgânico. No cinza, tudo o que é não-reciclável. E a prefeitura coleta tudo, toda semana, e os cidadãos só pagam pela coleta do lixo cinza. Incrível, eficiente, sustentável.

Charity Shops
Mesmo tendo dinheiro de sobra, as Irlandesas adoram comprar em bazares de caridade, que vendem roupas usadas a preço de banana. Minhas chefes são viciadas e compram coisas para elas e para as crianças, sem se importar se é usado. Influenciada por elas, fui visitar uma em Dun Laoghaire. Saí de lá com um casaco branco da Zara (lindo e um pouco sujo, mas nada que uma lavanderia não resolva) por 6 euros e um vestido branco de verão (perfeito!) por 2 euros. Adorei!

Coisas estranhas

Nackers
Um grupo de vagabundos, que não trabalham e são sustentados pelo governo, que andam pelas ruas em grupos, religiosamente vestidos com roupas esportivas, meio sujos e muito mal encarados, que gostam de arrumar confusão e cometer furtos e roubos sempre que veem uma oportunidade. O pior é saber que o governo financia a palhaçada. Eles recebem casa de graça, ganham dinheiro por cabeça de filho (e, por isso, tem filhos a rodo) e seguro saúde. Ou seja, um vidão, simplesmente por serem desempregados.

Depois que eu fui assaltada e o apartamento da Aline foi arrombado, eu tenho pavor deles! PAVOR. Vejo um e seguro a bolsa com força. Vejo três e atravesso a rua. Vejo cinco e saio correndo. Odeio todos eles. Na minha opinião, eles são uma vergonha para a memória do povo irlandês, com todos aqueles antepassados que morreram de fome na miséria, porque não tinham outra opção, não porque tinham mau caráter.

O jeito que os nackers falam
Ainda falando dos escrotos, é bizarro o jeito que eles falam. Não só eles, na verdade, mas todas as pessoas mais humildes de Dublin, mesmo os que não são bandidos. Eles falam muito rápido e muito enrolado, sendo praticamente impossível de entender qualquer coisa. Agora imagina o meu desespero quando a Mary Rose me mandou um encanador aqui de manhã e o cara começou a me explicar o motivo pelo qual a pia da banheira não estava funcionando? “sauhdaugfuagff tap, adaufgaufhaf cold water, adhaudghaidjaonifafhs8fi plumber”. Além disso, todos eles usam as mesmas expressões, do tipo “do you know what I mean?”, “fairplay” e “grand”, umas quinhentas vezes na mesma frase.

Gaélico, o idioma que não serve para quase nada
Oficialmente, o gaélico é o idioma do povo irlandês. E, para ser oficializada, todas as leis, placas, informações de transporte e segurança devem ser escritas na língua irlandesa. Mas, na prática, o idioma fica só no papel e nas placas de ruas mesmo. As pessoas até aprendem na escola, mas quase não usam. A Mags e o Bepi, por exemplo, só usam quando eles querem falar algo na frente do Antônio que ele não pode entender, do tipo “hora do remédio”. Mas em alguns lugares muito remotos da Irlanda, ainda existem pessoas que se comunicam em gaélico.

Uniformes femininos nas escolas
Uniforme escolar aqui é levado a sério. Até aí, tudo bem, acho que também deveria ser assim no Brasil. O problema é o uniforme feminino. Poxa, as meninas ainda tem que usar saias, mesmo em dias frios! E, conforme a idade vai aumentando, também aumenta o comprimento da saia. Assim, é possível ver meninas de colegial com saias que chegam pra baixo dos joelhos. Conservador demais, na minha opinião.

 

Wedding bus
Me diz, porque uma pessoa em sã consciência alugaria um ônibus de linha da cidade para levar a noiva e os convidados para o casamento? Pois é, por aqui você pode fazer isso pela bagatela de 500 euros. E, que lindo, o ônibus é branco (e sujo, porque quando não são usados pelas noivas, eles entram na labuta), com uma foto muito da escrota de uma noiva sem graça. >.<

Now
É fato, essa é a palavra mais utilizada pelos irlandeses e, sem motivo algum! Eles falam “Now!”, quando terminam de fazer algo, quando vão começar uma sentença, quando estão falando com crianças. Acho que um equivalente seria o “pronto!” dos baianos. E o pior é que eu peguei a mania também, de tanto que as minhas chefes falam. Então, é assim troca uma fralda e solta um “now!”, serve o prato da criança e diz “now!”. E não é que o Airt e o Antônio vivem falando isso também, apenas com dois anos de idade? Pois é, é assim que começa. Now!

Moscas varejeiras
De onde eu venho, quando se tem uma mosca varejeira por perto, é sinal de que a coisa está preta. Ou melhor, podre. Tamanha foi a minha indignação quando descobri o primeiro par de moscas varejeiras no meu apartamento, que eu dizia pra Aline: “esse lugar é imundo, olha o tamanho das moscas!”. Mas, muitas moscas depois, mesmo nos ambientes mais limpos, eu descobri que elas são normais por aqui. Um belo dia me entra uma dessa na sala e eu me matando para expulsar a nojenta, tentando proteger os meus bebês, quando a Mags chega e pergunta: “Mas que diabos você está fazendo? Deixa, daqui a pouco ela vai embora”. o.O

Higiene ou a falta de
Eu sempre fui contra as pessoas que vivem dizendo que europeu não toma banho, achava que era a maior injustiça estereotipada do mundo! Mas, sabe? É um pouco verdade que eles são negligentes com a higiene. Meus bebês só tomam banho duas vezes por semana e quase nunca tem os dentes escovados. As crianças da Tamis (7, 5 e 3 anos) só tomam banho aos sábados! A Mary Rose praticamente guarda louça suja no armário. E, digamos que uma cariocada na casa, parece a faxina dos sonhos para eles.

See you!

Emprego novo, vida nova

Sirius e Bruninha aproveitando um cantinho novo ^^

Olá!

Chega de mistério! Vou revelar o motivo da mudança do flat, de não fazer mais aquele caminho para o trabalho e de não precisar mais fazer compras de supermercado. Tan, tan, tan, tan… Arrumei um emprego novo!

Eu estava naquela fase de desespero, pós-assalto e sem conseguir emprego, por mais currículos que tenha entregado. Então, conversei com a Mags sobre isso, perguntando se eu não poderia trabalhar de manhã para ela também, em troca de morar por lá. Mas, como ela já tem a Kitty, acho que seria gente demais. Mas, de qualquer forma, ela me ajudou. Ligou para amigas, conversou com pessoas, até que… surgiu a oportunidade certa.

Uma das amigas delas, Mary Rose (que eu já conhecia de um passeio à praia), estava insatisfeita com o seu au-pair (sim, um homem) pois, por mais que ela seja cabeça aberta e moderna, percebeu que homem não tem instinto para cuidar de criança. O legal da história é que a rotina do filho dela (Airt, dois aninhos, bochechas rosadas e cílios gigantes) é o oposto da rotina dos meus bebês. Ou seja, enquanto eu fico com o Airt pela manhã, os bebês estão com a Kitty. Enquanto eu fico com os bebês à tarde, o Airt está na creche. E o melhor, era uma live-in position, para morar na casa. Ou seja, sem despesas com aluguel e comida e dois salários no bolso! FECHOU =D

Tivemos uma entrevista informal, acertamos os detalhes de horários e caminhos, para que eu pudesse estar a tempo nos dois empregos, ela falou com o cara e deu um prazo para ele sair e aqui estou eu, desde sábado às 13h =)

Ainda não comecei a trabalhar, porque meu trabalho será só de segunda a sexta-feira, mais algumas noites de baby-sitting que ela me pagará por fora ($$$$$$$). Mas, como ela mudou de casa nesse final de semana, fiquei ajudando-a a colocar as coisas em ordem, ora desfazendo caixas, ora brincando com o Airt.

Mas já está tudo diferente. Agora eu tenho guarda-roupa no quarto. Aliás, agora eu tenho um quarto grande só para mim. Eu não preciso mais cozinhar, porque ela cozinha e muito bem! Posso trabalhar de chinelos. Tenho televisão em casa (\o/). E tenho uma outra chefe muito legal, mãe solteira, que tem uma empresa de marketing em redes sociais (dá para acreditar?), viajou para todo o canto, é budista e gosta de conversar. Meu inglês, conhecimentos culturais e de marketing agradecem ^^

Estou feliz!
Em breve, posto fotos da casa e da minha família nova.

P.S.: Daqui a pouco, vamos à praia! E o melhor, a Mags e alguns dos bebês vão com a gente (não sei quem ainda). Gente, como eu amo as minhas crianças! S2

P.S.: A gente ainda vai ter uma cozinha com vidro no teto, Beto. Te amo.

P.S.: Tem uma outra pessoa, meio chata e gordinha, que começou um emprego novo essa semana. E a coincidência é que essa pessoa é minha erbã e a empresa é a minha ex-firma. Sucesso, Gô! Estou tão feliz por você que dá até dor de barriga =)

See you, lads!

Atravessando as ruas

Olá!

Aqui na Irlanda, assim como no Reino Unido, o volante dos carros é localizado do lado direito do carro, o oposto do que estamos acostumados. Assim, a mão das ruas é invertida e, quando você chega aqui pela primeira vez, fica meio confuso para atravessar as ruas.

Agora, imagina como isso é difícil para uma pessoa perdida e sem senso de direção como eu?
o.O

Mas aqui é Dublin, então, as ruas são pintadas com a indicação de qual lado você deve olhar. Isso ajuda muito =)


Mas porque é assim?

A origem da mão inglesa (e da irlandesa, por consequência) vem dos tempos dos cavaleiros na Inglaterra. Como a maioria era destra, ao cruzar com outras pessoas, faziam isso pelo lado esquerdo, protegendo assim a sua espada e, ao lutar, como seguravam-na com a mão direita, precisavam manter seus inimigos deste lado, o que exigia que se mantivessem do lado esquerdo. Quando os ingleses produziram os primeiros automóveis, seguiram a lógica da direção ficar à direita e o carro circular pela esquerda.

Como no Star Wars

Sabe o filme Star Wars? Então, sabe aqueles robozinhos brancos que usam uma arma laser? Então, sabe o barulhinho que a arma faz? Os faróis, para te avisar que estão abertos, fazem esse barulhinho. Muito engraçado =)

P.S.: Sem muitas novidades, estou só me acostumando com a casa nova por enquanto. Ah, e passando horas e horas com o meu querido namorado no Skype, para saber todas as novidades da viagem dele para New York *____*

St. Patrick’s Day

Olá!

Olha que orgulho, estou postando em dia \o/

Ontem foi o dia de St. Patrick, famoso padroeiro da Irlanda, que trouxe para cá o Cristianismo. Eu poderia dedicar este post à vida dele, à missão a que ele foi designado aqui e às lendas a respeito disso tudo. Mas, como a maioria das pessoas associa este dia não aos feitos de St. Patrick, mas sim a bebibas e bagunça, vamos falar do lado mais festivo da comemoração. Deixo os feitos de St. Patrick para outro dia, na ocasião da visita a sua incrível catedral (que estou louca para conhecer *_____*).

O dia em que todo mundo quer ser irlandês

Essa data (17 de março) já era comemorada pelos irlandeses desde o século X. Porém, apenas em 1600, é que se tornou reconhecida pela Igreja Católica. Em 1903, o governo reconheceu a data como um feriado público. A primeira parada aconteceu em 1931 e o primeiro festival apenas em 1996, com uma audiência de 430 mil pessoas. Em 1997, o festival durou três dias. Já em 2001, foi prestigiado por mais de 1,2 milhões de pessoas. Atualmente, a organização do evento leva mais de 18 meses para planejar o festival. Ou seja, nesta hora, já estão planejando o do próximo ano! o.O

Dias de pura festa!

Este ano, por causa do feriado bancário que é na segunda-feira, o festival durou quatro dias. E com programações para todos os gostos: música, dança, parada, exposições. Escolhi algumas coisas para fazer mas, como as mais legais aconteceriam no sábado – e competiriam com os pubs e bebidas, acabei perdendo.

A parada é o ponto alto do festival. O tema deste ano era “Explorando as maravilhas e curiosidades da ciência”, baseada em perguntas que as crianças sempre fazem: “O que faz a água mudar? Como a eletricidade é feita?” e as respostas das crianças de escolas de todo o país, mais malucas do que as próprias perguntas (Porque a gente sonha? “We dream because our brain is bored”. Como podemos dizer a idade de uma floresta? “If you go deep enough into the forest, which you probably won’t, you might find a talking bear or fox and they will tell you”), ajudaram a criar o conceito criativo da parada. Algumas empresas, de toda a Irlanda, ficaram responsáveis por responder a cada uma dessas perguntas em cada bloco da parada.

Para pegar a parada, saímos cedo de casa. No caminho, mesmo aqui em Palmerstown, você já via muitas pessoas e crianças de verde e laranja, carregando bandeirinhas, com os rostos pintados, com chapéis engraçados. Chegando no centro, começou a magia do negócio. Quem já foi em um show de rock deve imaginar do que estou falando. Sabe aquele momento em que o pessoal vai entrando no estádio, vestido de preto e com a camiseta da banda e você sente aquela energia, aquela empolgação, de todo mundo estar ali pelo mesmo objetivo? Pois bem, ontem foi assim, só que mais alegre. Afinal, estava todo mundo colorido e engraçado \o/

Não ficamos na rua principal, pois estava impossível de tão lotada. Fomos para a Damien Street, dica do professor Ciaran, uma rua secundária por onde a parada passa. Bem menos pessoas e eu consegui subir em um meio poste que estava na calçada e fiquei responsável pelo registro fotográfico do evento.

E demorou, só depois de umas duas horas que estávamos ali, é que os primeiros movimentos passaram. Começou com uma carruagem, com a filha do presidente lá dentro. Depois, um ônibus de dois andares com gente importante, talvez o próprio presidente estivesse lá, não consegui saber. Depois bandas de marchinha, uma graça. E logo vieram os blocos alegóricos. Lindos, criativos, teatrais. Adorei!


Depois da parada, decidimos que era hora de começar os trabalhos com as bebidas! Como a prefeitura já sabe como é, a venda de bebidas só foi liberada nos supermercados após as 16h, horário em que as famílias com crianças já teriam deixado a área central. Medida super sensata na minha opinião, já que o pessoal não estava para brincadeira ontem no quesito bebedeira.

Compramos as bebidas no supermercado (6 latas de Guinness – das quis bebi 4 = 2 litros – por 10 euros), fomos para a casa dos guris de Floripa e ficamos por lá, bebendo, conversando, cantando e tocando violão, ouvindo rock ‘n roll e David Gueta (que a Marcela insistia em colocar – “Gente, rock é música para quando estou sóbria! Quando estou bêbada, quero ouvir David Gueta!”). Foi muito legal. O pessoal é muito gente boa e é incrível você poder contar com pessoas que estão na mesma situação que você, compartilhar histórias, trocar informações. Adorei passar o St. Patrick’s Day com vocês e com a Guinness, guys =)

El logo começou a cantoria: “Pub, pub, pub, pub!” e decidimos que era hora do pub, finalmente. O centro já estava completamente mudado. Vários prédios estavam verdes “Olha, Aline! O GPO tá verde, vamos tirar foto! Eu adoro o GPO, seu lindo!”, havia sujeira nas ruas (que feio, pessoal!) e gente bêbada por todo o lado. Comemos no Mc Donald’s (rápido e barato) e saímos à procura de um Pub. E nada, tudo lotado, com 20 minutos de espera para entrar, seguranças mal educados “Aqui no Temple Bar tem mais de 20 pubs. Escolhe outro então, já que não quer esperar” e um frio dos diabos.

Achamos um que poderia acomodar a nossa pequena comitiva de quase 15 pessoas e entramos. Lotado, quente, gente bêbada dando vexame (tipo, a mulher estava com um vestido, sem calcinha e com tudo de fora, tenso). E o som era um eletrônico, meio pop e muito safado. Cara, onde estão os pubs de rock dessa cidade?

Não aguentamos muito, a ressaca começava a fazer efeito e decidimos que era hora de ir pra casa. Se fosse em São Paulo, pagaríamos uma fortuna por um táxi ou ficaríamos largadas em um canto, até os ônibus voltarem a circular. Mas aqui é Dublin, então conseguimos pegar o Night Bus, que passa de uma em uma hora e cobre os principais pontos da cidade. Ele é mais caro (5 euros), mas é uma salvação! Fiquei encantada =)

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E hoje, dá-lhe água para fazer a ressaca passar! Por enquanto, estamos descansando em casa, até que alguma inspiração divina ou mensagem surja, dizendo onde será a boa de hoje (afinal, amanhã é ferido = no classes!). A boa notícia do dia é que nos mudamos amanhã! Poder cozinhar, economizar em comida e condução e se sentir mais à vontade, não tem preço =)

Até!

A universidade mais rica do mundo

Olá!

Estou atrasada, eu sei. Mas não é fácil escrever tudo isso, sabe? Eu sei que exagero, mas eu gosto assim e acho que vocês também =)

O passeio de ontem foi cinco estrelas, pois estamos falando de uma das maiores e mais históricas atrações de Dublin. Sim senhores, com vocês, a Trinity College! Já havíamos passado por lá para fazer a carteirinha de estudante, mas naquele esquema de olhar sem realmente ver. Posso dizer então que a surpresa aconteceu do mesmo jeito, como se fosse a primeira vez =)

Entrada principal

Estamos falando da universidade mais antiga e com o melhor nível de ensino da Irlanda, da 65ᵃ melhor universidade do mundo e 21ᵃ melhor universidade da Europa. Também, ninguém menos que Bram Stoker (sim, o do Drácula mesmo – que é irlandês, aliás), Oscar Wilde (s2), Samuel Becket (ganhador do Nobel de literatura) e diversos políticos estudaram por lá.

Pátio central

A universidade foi fundada em 1592 pela rainha Elizabeth I (filha do Henrique VIII, que já comentei por aqui), no local de um mosteiro agostiniano. No começo, ocupava apenas um pequeno espaço mas, como o passar do tempo, parceiros foram surgindo, os cursos foram sendo formatados, os livros para a biblioteca foram sendo adquiridos e sua fama foi surgindo.

Campanário

No começo, apenas os alunos de famílias protestantes eram aceitos. Mas, a partir de 1873, os católicos também passaram a frequentar a universidade. Mas, até então, só os homens podiam estudar lá, vê se pode? Foi somente em 1904 que as mulheres começaram a ser aceitas.

Estátuas de homens importantes para a universidade

Hoje em dia, a universidade conta com três faculdades principais: 1) Faculdade de Artes, Humanidades e Ciências Sociais; 2) Faculdade de Engenharia, Matemática e Ciências; 3) Faculdade de Ciências da Saúde. Dentro delas, estão divididos os inúmeros cursos de graduação e pós-graduação. Imagina, ter um diploma da Trinity? #Morri

O campus é MARAVILHOSO! Além de prédios grandes, históricos, de belíssima arquitetura e jardins impecáveis, o ambiente é calmo, alegre, cheio de pessoas (estudantes, professores, turistas, grupo de crianças em excursão) passeando, almoçando nos jardins, conversando, fotografando e até fazendo acrobacias.

=D

Infelizmente, quase todos os prédios são fechados para visitação ao público, pois poderia atrapalhar o funcionamento da universidade. Então fica a vontade de conhecer o que está lá dentro e se imaginar ali um dia, lendo o Retrato de Dorian Gray e se emocionando ao pensar que o cara que escreveu o livro que você tanto gosta estudou ali.

Mas eu disse quase todos, certo? Sim, tem um muito especial é aberto ao público. E, eu não sei o que tem nos outros, mas acho difícil que eles sejam mais valiosos do que esse que eu visitei. Estou falando da Old Library! Como o próprio nome diz, é uma biblioteca antiga. Quem me conhece, sabe que eu sou fascinada por bibliotecas e por coisas antigas. Ok, eu já estaria satisfeita só com isso. Mas essa não é uma biblioteca normal, ah não. Uma de suas salas armazena o Book of Kells (manuscrito medieval) e sua sala principal, o Long Room, é uma das coisas mais fascinantes que já vi na vida.

A exposição começa com a sala do Book of Kells. Ele é um manuscrito medieval, feito por monges (4 escribas e 3 artistas, ou seja, feito a 7 mãos!) por volta do ano 800, riquíssimo em iluminuras, escrito em latim e que contém os quatro evangelhos do Novo Testamento, sobre a vida de Cristo. Ele não foi feito para ser usado em leituras do dia a dia, apenas em cerimônias e ocasiões muito especiais. Em toda a sua cronologia, ele foi começado, terminado, roubado, recuperado, ficou desaparecido, foi encontrado e, finalmente, foi devidamente armazenado. Em virtude da sua grande beleza artística e da excelente técnica de seu acabamento, ele é considerado um dos mais importantes vestígios da arte religiosa medieval. Olha só que tesouro? *____*

A página mais elaborada do livro, parte do evangelho de St. Matthew

A exposição segue essa lógica: 1) contextualização da época (primeiros contatos daquele povo pagão que aqui vivia com o Cristianismo); 2) como era o trabalho dos monges (as missões que precisavam fazer, as cerimônias, em qualquer hora do dia e da noite); 3) manuscritos similares (Book of Mulling, Book of Oimma – este último com uma perfeição que eu não consigo entender); 4) do que eles eram feitos (de pele de bezerro , que era imersa em excremento e depois raspada com uma faca para retirar os pelos e, depois de seca, era dividida em duas páginas ou do latim bifolia); 5) com o que eles escreviam (penas de ganso ou cisne, gigantescas, além de compassos para ajudar nos desenhos); 6) do que eram feitas as tintas (pedras, plantas, cascas de árvores); 7) como os monges escreviam e desenhavam (os monges escribas escreviam, os monges aristas desenhavam); 8) como era o acabamento (com madeira, pele de bezerro, linhas grossas); 9) como eles faziam como erravam (se a página estivesse errada, desenhavam cruzes nela e, se errassem apenas uma palavra ou outra no texto, faziam um símbolo indicando que era um erro). E finalmente, em uma sala especial, temos o Book of Kells.

Lá, temos dois volumes do Book of Kells abertos (são quatro ao todo): um com o evangelho de St. Matthew (com o retrato dele em uma página – folio 28v e Liber generationis, palavras de abertura de seu evangelho em outra página – folio 29r) e outro com textos – Folios 145v-146r – ‘A prophet is not without honour, but in his own country’).

St. Matthew

Olha como as letras eram decoradas!

O tempo todo você se pergunta como esses caras conseguiam fazer isso, com tão poucos recursos. Cara, eles escreveram o livro a mão, que é enorme! Imagina quanto tempo levaram? E ainda decoraram tudo, com letras rebuscadas, iluminuras, cheias de significados. Nada está ali por acaso, tudo quer dizer alguma coisa. Sensacional.

Agora, para falar do Long Room, vou precisar descrever exatamente o que senti e pensei, para que vocês possam ter uma noção da grandiosidade do que estou falando.

E lá vai a Talita subindo a escadaria que dá acesso ao Long Room. No topo, ela vê uma placa dizendo que, excepcionalmente hoje, poderá ver de perto o trabalho de restauração dos livros antigos. Ela pensa: “Uau, sempre quis ver algo assim!”. E lá estão as moças, limpando os livros com pincéis e luvas roxas. Ela pensa: “Nossa, acho que eu ia tremer só de segurar um livro tão valioso assim… Caramba, que curso será que ela fez na faculdade? Será que estudou aqui? Poxa, deve ser tão legal. Acho que eu gostaria de trabalhar com isso. Será que estou na área errada? Será que…”. E Talita é chamada de volta à realidade por Aline, que sensatamente lembra que ainda temos muito o que ver, antes do espaço fechar. Ok.

Olhando para o lado, Talita vê os painéis de uma exposição temporária sobre a França de Louis XIV, feita com gravuras e ilustrações dos livros que estão expostos no Long Room. Ela pensa: “Hum, eu adoro a França e todos os Louis! Que legal, vou prestar bastante atenção. Será que foi o Louis XIV que fundou Versailles? Porque eu lembro que tinha uma estátua dele na entrada de Versailles… Vou pesquisar isso depois.”.

Enquanto pensa com seus botões e olha os painéis ao seu lado, Talita não percebe que entrou finalmente no Long Room. Só quando ela ouve os “ohhhh” das pessoas ao seu lado e sente um aroma doce, amadeirado, empoeirado, é que ela olha para a frente. Puta que pariu. Talita para e não consegue pensar em mais nada. Nada. Ela só olha para aquele ambiente enorme (mede 65 metros de ponta a ponta), com todos aqueles livros velhos (mais de 200 mil exemplares), todos aqueles bustos entre as prateleiras (grandes filósofos e escritores da humanidade – e o primeiro é logo o Shakespeare *____* – como se fossem os guardiões daqueles tesouros), inscrições em latim por todo o lado e aquele teto de madeira, completamente arqueado.

Foi exatamente isso que eu vi *_________*

E eu não cansava de olhar para a frente, para gravar todos os detalhes na minha memória. Eu poderia ficar muito tempo ali, só olhando para aquela cena… Mas tinha mais a ser visto por ali: uma das poucas cópias que sobreviveram dos cartazes da primeira tentativa de Proclamação de Independência da Irlanda, com um texto apaixonante e a harpa mais antiga já encontrada na Irlanda. Além de todas as gravuras de Louis XIV e Versailles, que quase me trazem lágrimas aos olhos, por ver o que eu eu tanto amei na França retratado assim, em um livro feito muuuuuuito antes do meu tempo.

Olha, essa foi uma das melhores experiências da minha vida. Como eu me senti bem ali. Me senti em casa, com tudo o que eu gosto me rodeando. E eu posso dizer que essa foi a primeira grande surpresa que Dublin me proporcionou, sem pressa, em um belo dia após a aula de inglês. Ah, Dublin…

P.S.: Me desculpem pela demora em postar. Eu pretendo fazer isso todos os dias mas, enquanto não tenho uma rotina muito definida, fica difícil. Mas, em muito breve, chegarei lá. A boa notícia é que fechamos o apartamento (o primeiro que visitamos, da Yujin). O outro que comentei era bom também, mas não deu certo, a pessoa desistiu de sair. Mudança programada para terça-feira que vem =)

P.S.: Momentos de desespero e angústias nesses últimos dias, quando estava difícil resolver a questão do apartamento e com tudo o que eu ouvi sobre como é difícil arrumar emprego por aqui. Mas sabe de uma coisa? Eu vou ver tudo cor de rosa, mesmo assim. Obrigada, Mamis da minha vida, pelo livro cor de rosa e por essas constatações =)

P.S.: As fotos internas deste post não são minhas, pois é proibido tirar fotos lá dentro. Obrigada, Google Images.

Lovely day for a Guinness

Hi, folks!

Como eu comentei no último post, ontem foi o dia de visitar a Guinness Storehouse, exposição na fábrica da tão amada cerveja irlandesa. Esse foi o primeiro passeio completamente planejado e sabe de uma coisa? Foi SENSACIONAL *___________*

A magia começa nos arredores da fábrica, que é gigantesca. Ela não tem aquele porte moderno, ultra-high-power tecnológico que vemos nas fábricas e empresas por aí. Não, o muro é todo de tijolinhos, com plantas crescendo perto dos canos e tals. Você se sente voltando no tempo! E, ao chegar pertinho da entrada, você começa a sentir um cheiro muito bom, da fermentação da cerveja. Promissor não?

Muro de frente para o Liffey

Já perto da entrada da exposição

Mas, ao dar o primeiro passo para dentro, aquela impressão do passado, dos tijolinhos, das plantas nos canos some completamente. E você se sente no futuro, com todos aqueles painéis, escadas rolantes, luzes, equipamentos. Para onde olhar primeiro? Droga, como eu queria ter mais olhos e mais GB de memória no meu cérebro.

O prédio da exposição fica dentro da planta da enorme St. James’s Gate Brewery, fábrica adquirida por Arthur Guinness em 1759. Ele foi construído com a forma de um gigante pint que, se cheio, conteria mais de 14 milhões de pints (*____*). É a coisa mais incrível do mundo olhar do térreo para cima. Você realmente se sente dentro de um pint!

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Um pouco de história

Tudo começa quando Arthur Guinness (nascido em 1725, em uma família com tradição na arte da cerveja) ganha uma herança de seu padrinho, o Arcebispo Price. Com esse dinheiro, ele assina um contrato de aluguel de 9.000 anos pela St. James’s Gate Brewery, uma fábrica de cerveja falida em Dublin. Dá para acreditar na fé que ele já tinha na capacidade dele?

Contrato de 9.000 anos assinado por Arthur Guinness

No começo, ele produzia ale e stout (antes chamada de porter). Mas a stout fez tanto sucesso logo de cara, que ele deixou de produzir a ale. E, em apenas 10 anos, ele já estava exportando barris e mais barris da sua cerveja para a Inglaterra. Gênio, não?

Tem uma história engraçada por lá, que diz que o prefeito da cidade ameaçou interromper o fornecimento de água para a fábrica da Guinness, porque eles estavam consumindo mais do que era permitido. E o querido Arthur disse que, se fosse preciso, ele defenderia a fábrica com a força e pegou uma picareta para enfrentar os invasores. Felizmente, nenhum confronto foi necessário e eles fizeram um acordo, aumentando a cota de água.

Ele é o quinto ingrediente =)

Arthur morre em 1803, mas seu filho Arthur II assume os negócios e o sucesso da cerveja continua. Em 1815, eles começam a exportar para Lisboa. Em 1840, para Nova York. Em 1858, sob o comando de Sir Benjamin Lee (filho de Arthur II), eles exportam para a Nova Zelândia. Em 1870, 10% da cerveja já é vendida em outros países. Agora, sob o comando de Edward Cecil (filho de Sir Benjamin), a fábrica dobra de tamanho. Ele também foi famoso por todas as obras de caridade que fez com o dinheiro da empresa. Rupert Guinness sucede o pai e agora mais de 2 milhões de pints de Guinness são vendidos por dia. Surge o primeiro slogan da Guinness (Guinness is good for you). Anos depois, fábricas começam a ser inauguradas em vários lugares do mundo. E, hoje, 10 milhões de pints são consumidos por dia, em mais de 150 países. Mais sucesso, impossível.

Os ingredientes

Eles não fazem segredo sobre os ingredientes, pelo contrário, deixam tudo BEM exposto (e bota bem exposto nisso!). São espaços interativos e conceituais, que mostram os ingredientes ao vivo e a cores, com aroma, textura, explicações. E os ingredientes são: barley (trigo), hops (lúpulo), water (vinda das montanhas de Wicklow) e yeast (fermento, que diz a lenda que descende desde a primeira leva que o próprio Arthur fez).

Barley

Hops

Water

Yeast que o próprio Guinness fez

As etapas

A exposição continua e, à medida que você vai conhecendo as etapas da produção, vai subindo escadas e avançando para o topo do grande pint. As etapas são milling (moer o trigo), mashing (mexer o trigo moído com água quente), filtering (filtrar a mistura, tirando os grãos que não serão mais necessários), boiling (acrescentar o lúpulo e trigo tostado – que dá a cor escura à Guinness e ferver tudo), fermentation (o fermento mágico do Arthur entra em ação, convertendo o açúcar em álcool em alguns dias), maturation (deixar toda a mistura descansar) e packaging (a cerveja é acondicionada em barris e o nitrogênio é adicionado para que, quando o pint for tirado, a cremosidade seja garantida por suas bolhas).

Painéis demonstram o que acontece dentro dos equipamentos

Indeed =)

De Dublin para o mundo

Em outro andar, podemos conferir uma exposição dos navios que foram construídos para exportar a Guinness, todos os com os nomes das mães e esposas dos descendentes de Arthur. Romântico =)

Podemos também ver um vídeo muito interessante sobre como os barris de madeira eram fabricados, na raça e na mão do artesão. É hipnotizante, todo mundo para e olha!

My Godness, my Guinness

Depois, temos uma exposição dedicada a toda a publicidade da Guinness, desde os rótulos das garrafas aos anúncios, slogans, comerciais. Para os publicitários de plantão, é um prato cheio!

Ilustras eram usadas nos primeiros anúncios

Gravity Bar

Por último, você pode degustar um pint de Guinness na faixa no Gravity Bar, o último andar do pint gigante, com paredes de vidro que permitem que você tenha uma vista de 360 graus de Dublin. De tirar o fôlego.

Cheers!

E eu entendi porque o bar se chama assim, após o meu pint e meio (porque a Aline dividiu o dela comigo e com o Miguel). Sabe, a cerveja vai fazendo efeito e, se você sentar bem perto do vidro, vai se sentir flutuando, como se não houvesse gravidade. Foi como disse o Miguel, quando comentei com ele essa sensação que estava sentindo: “Haha, como os astronautas!”. Inesquecível!

Por último, passamos na lojinha e compramos alguns souvenirs para lembrar para sempre da incrível experiência que tivemos. Porque essa não é uma mera exposição, é uma experiência que eles proporcionam ao consumidor. Isso é Marketing 3.0 e eles estão de parabéns pela inovação, tecnologia, site, folhetos e pelos produtos incríveis que possuem com a marca Guinness. Poxa, como eu queria trabalhar lá =(

O blusão é meu. Quem adivinha para quem é a bolinha de Rugby? s2

A volta para casa foi divertida e tranquila, mesmo após quase 3 horas de andanças. É como dizia um dos antigos anúncios deles: “Guinness for Strengh” =)

Thank you, Arthur!

P.S.: O passeio custou 10.60 euros, mas tivemos desconto graças a nossa querida carteirinha de estudante do Trinity College. Olha só, ela custou 15 euros, mas já economizei 4 ontem na Guinness Store. Logo menos, ela estará paga, só com os descontos =)

P.S.: Hoje, domingão, foi dia de enviar curriculuns, organizar o quarto, as contas e postar no blog. Acreditam que não botamos o nariz para fora? o.O