Irlanda do Norte #Dia 3

Com um café da manhã feito de sobras (porque esquecemos de comprar coisas para comer), começamos o dia. E bem rápido, porque a programação seria longa, já que seria o dia de desbravar Belfast!

Começamos no quintal do hostel, o Cathedral Quarter, que tem esse nome por conta da belíssima St. Anne’s Cathedral, construída em 1904 pelo arquiteto Sir Thomas Drew. Aí vem todo o meu ritual para descobrir catedrais: entrando geralmente pela lateral (é sempre raro a porta principal estar aberta) me direciono até o centro, ainda nos fundos, e só olho para a frente quando estou bem no meio. Uau. É sempre incrível ter a primeira visão de uma grande catedral assim =)

Uma curiosidade é que essa catedral possui um “Spire” dentro dela, como o de Dublin, instalado no seu topo em 2007, como parte do plano de desenvolvimento do Cathedral Quarter. Que visual bacana, o contraste do antigo e do moderno!

A próxima parada seriam os famosos murais políticos de Belfast, que achamos melhor fazer logo cedo, porque vai que é perigoso por lá mais tarde? Como tínhamos a vantagem do ônibus turístico, pegamos o bonitão, sentamos no piso aberto de cima e lá vamos nós, passeando pelo centro, fotografando tudo, até chegar na região dos murais, onde descemos.

A origem dos murais vem de décadas atrás, quando os conflitos entre católicos e protestantes começaram a apertar por ali. Pintar os murais foi uma forma que os grupos encontraram para demonstrar sua opinião e mobilizar mais cidadãos para abraçar a causa. Desde o começo, mais de dois mil murais diferentes já foram produzidos. Antigamente os temas eram “Ei, Lads! Vamos nos separar da Inglaterra!” ou “Ei, lads! Não vamos nos separar da Inglaterra!”. Hoje em dia, ainda é possível ver alguns assim, mas a maioria não possui nenhuma causa política, apenas pedem paz.

Uma coisa muito surpreendente foi descobrir que os católicos e protestantes já foram divididos por um muro com grandes portas de metal (The Peace Wall), onde a polícia inglesa fazia uma verificação de documentos para permitir a passagem de um lado para o outro. Os muros foram criados no final da década de 60, para tentar minimizar a violência entre os dois grupos. Hoje em dia, o portão fica aberto mas, na boa? Quando passamos por lá mais tarde, estava fechado! De qualquer forma, a região é atração turística e todo mundo assina seu nome e deixa uma mensagem no muro. Aproveitamos a deixa =)

Com muro ou sem muro, ainda existe a separação entre a área católica e protestante. É estranho. No lado católico, é tudo vazio, com ruas desertas, memoriais para mortos em conflitos e murais tristes. No lado protestante, mais movimento e ruas cobertas por bandeirinhas inglesas e fotos da Rainha Elizabeth.

Ainda no lado católico, passamos pelo Clonard Monastery, construído em 1897. Lindo! Estava acontecendo uma missa por lá e eu fiquei para ouvir um pouquinho. Ouvi o Padre dizer que, apesar do passado tempestuoso e de todas as perdas, precisamos lembrar que Deus é amor e que não devemos guardar ódio pelo que passou. Me perguntei se foi só coincidência ou se ele realmente precisa ficar repetindo essa mensagem para tentar apaziguar os ânimos, ainda hoje.

A essa altura do dia, já verdes de fome, fomos para o St. George’s Market, construído em 1890. Além de vender frutas, legumes e peixes, aos finais de semana funciona por lá um MARAVILHOSO mercado de comida e artesanato, com comidas de tudo quanto é tipo, barraquinhas cheias de geléia, queijos, bijouterias, livros e música ao vivo. Depois de uma olhada por todas as opções de comida (libanesa, indiana, mediterrânea, irlandesa, chinesa, hamburguers, hot-dogs, crepes e bolos), escolhemos um potão de 5 pounds do indiano arroz vegetariano com frango apimentado e um pedação de bolo fudge de chocolate.

Estufadas e felizes, corremos para o tão esperado City Hall, com o nosso tour agendado para às 15h e pelo amor de Deus, não podemos perder agora! Talvez o mais famoso cartão postal de Belfast, o City Hall é motivo de orgulho para os cidadãos, pois representa o reconhecimento de sua cidade como uma cidade! Esse fato aconteceu em 1888, quando a Rainha Vitória concedeu a Belfast o título de cidade e chegou à conclusão de que uma prefeitura seria necessária para refletir essa mudança de status. Em 1898, a primeira pedra foi alocada e, oito anos depois, ele estava pronto.

O prédio é, assim, maravilhoso. Um hall de entrada de tirar o fôlego, com uma abóboda alta e toda decorada do jeito que eu gosto. E à medida que o tour vai prosseguindo, pela escadaria acima, você descobre salas maravilhosas, uma mais linda e ornamentada que a outra, enquanto o guia vai contando fatos importantes sobre o local. Sabe, valeu a pena o esforço para conseguir fazer esse tour =)

Depois disso, resolvemos pegar o ônibus turístico mais uma vez, para fazer o trajeto completo agora, o que permitiu que conhecêssemos diversos prédios importantes, como a Queens University, Parliament Biuldings, Europa Hotel e Grand Opera House (Preciso registrar, que tentamos visitar o interior mais de 4 vezes e não conseguimos! Falta de consideração com os turistas pobres, isso sim! >.<) e diversas ruas da cidade.

A última parada foi o Tescão vitoriano (gente, até o Tesco é vitoriano em Belfast, como pode?), comprar ingredientes para fazer um risoto no hostel (com o arroz Basmati que a Tamis “descolou” no armário das sobras – onde a galera que está saindo deixa sua comida para os outros) de cogumelos e creme fraichè. No processo do risoto, ficamos observando meninos franceses (de uns 18 anos) ajudando uma tia francesa (deviam estar um uma excursão, sei lá) a fazer o jantar para mais de 20 coleguinhas. Gente, os meninos eram mais novos que o meu irmão e estavam lá, tirando a pele das salsichas, picando os legumes, refogando tudo na panela! Caiu até uma lágrima de admiração =)

Duas bacias de risoto e uma garrafa de vinho depois, eu só queria saber da minha cama, mesmo ela sendo meio estranha. E começava a bater a tristeza do último dia.

Anúncios

A terra de muitos Bloody Sundays

Memorial a mortos em zona de conflito – Belfast

Era uma vez uma terra habitada por celtas lindos e pagãos, que faziam festanças incríveis nos solstícios para agradar os deuses e pedir boas colheitas. Eles dividiram essa ilha em cinco províncias: Connacht, Ulster, Leinster, Munster e Meath. Cada província tinha o seu rei e eles viviam em relativa paz e união.

Quando os anglo-normandos aqui chegaram, quebrando e dominando tudo, essa divisão poética ficou só como lembrança e esse pedaço de terra, agora parte do Reino Unido, foi dividido em condados. Eles chegaram impondo a sua religião – o catolicismo, que mudou quando o rei Henrique VIII da Inglaterra resolveu criar sua própria igreja para poder casar quantas vezes quisesse, o bonitão. Os pobres irlandeses, antes pagãos, depois católicos, tiveram que virar protestantes também.

Nem todos aceitaram bem e aqueles que ainda queriam ser católicos foram marginalizados, perderam suas terras, enquanto seus mosteiros eram destruídos. Por uma questão de sobrevivência, os católicos foram se refugiando no sul e os protestantes no Norte.

Após muitas lutas, conflitos, mártires e mortes, o povo do Sul finalmente conseguiu a sua independência da Inglaterra, em 1921, para governar o país e rezar do jeito que quisessem. O povo do Norte preferiu ficar com a Inglaterra mesmo, obrigada. Problema resolvido? Não.

Mesmo sendo composta por maioria protestante, a nova Irlanda do Norte (região antes denominada como reino de Ulster) ainda possuía muitos católicos, que continuaram sofrendo injustiças. E, de tanto sofrer e querer se juntar com a galera do Sul, eles formaram um partido político de oposição (Sinn Féin – Ourselves, em inglês) e um exército (IRA, Irish Republican Army) para tentar conseguir a independência à força.

Mas a Inglaterra não queria perder de novo e controlou tudo com mãos de ferro. Mas eles também não estavam de brincadeira e usaram até de terrorismo para conseguir o que queriam. O resultado? Bombas, tiros e milhares de mortes para todos os cantos.

Por fim, eles conseguiram botar a violência de lado e criaram o “Acordo da boa sexta-feira” em 1998, que detalhava como seria o futuro do país em termos políticos, sociais e religiosos dali para a frente, com os ambos os lados cedendo e ganhando, mesmo sem a tão sonhada independência.

E em meados de 2005 (por garantia, eles esperaram um pouquinho), o IRA começou a se desarmar. E o status atual é aquele que o presidente do Sinn Féin (Gerry Adams) fez em 2011: “The war is over. The IRA is gone. The IRA embraced, facilitated and supported the peace process. When a democratic and peaceful alternative to armed struggle was created the IRA left the stage”.

Mas, na boa?
Eu vi vários helicópteros sobrevoando a zona tensa de Belfast, só de olho =X

P.S.: Esse é o começo do relato da viagem, em processo ^^

Até mais!

Ireland, a history

Olá, leitor!

(Sim, porque agora tenho leitores! O Ode to Ireland foi oficialmente divulgado \o/)

Se tem uma coisa que eu gosto na vida é história. Agora, imagina como eu levei a sério o negócio de entender a história do país onde vou morar? Sim, eu parti em uma busca insana para tentar entender direito porque diabos surgiu o IRA e porque o país é dividido em dois. E adivinhe? Eu fiquei mais apaixonada ainda =)

Eu não sei se você gosta de história. Provavelmente não. Mas, de qualquer forma, eu vou te atormentar com um breve resumo da história desse país incrível. Obrigada.

O começo 

– Tudo começa com um povo bem antigo, talvez oriundo da Escócia que, nas suas andanças, descobre uma terra verde e chuvosa e decide armar acampamento por ali.

– Depois de um tempo, chega um povo mais desenvolvido, que sabe plantar e construir coisas de pedra. Eles constroem o famoso túmulo de Newgrange (adivinha quem vai visitar? o//).

Túmulo neolítico incrível *___*

– Os primeiros trabalhos em metal e cerâmica são feitos na Idade do Bronze e são aperfeiçoados na Idade do Ferro. Eles acreditam em fadas e duendes. Eles são celtas e lindos \o/

O cristianismo 

– Chega na ilha o famoso, o único, o inigualável St. Patrick, que traz o cristianismo para aquele povo pagão adorador da natureza.

Agradeço a St. Patrick pela festa incrível a que participarei em breve o/

– Chegam os vikings safados e saqueiam tudo que encontram pela frente. Eles fundam cidades importantes como Dublin (tudo bem, eles não são tão safados assim).

O domínio 

– O rei inglês Henrique VIII (sabe, do The Tudors? s2) é declarado senhor da Irlanda pelo parlamento inglês. E é com ele que começam os problemas religiosos na Irlanda.

Qual dos dois você prefere? O.O

– Henrique VIII, influenciado pelas ideias protetantistas e louco de desejo por Ana Bolena, rompe com o Vaticano, para poder anular seu casamento com a rainha Catarina de Aragão.

– Ele funda a Igreja Anglicana, declara uma luta contra o catolicismo, dissolve os monastérios e executa um monte de gente.

– As novas regras protetantistas chegam na Irlanda e isso enraivece o povo que ali vive. Eles lutam bravamente por um bom tempo, para poderem manter a sua religião.

– Depois de lutas e revoltas, o poder protestante inglês se firmou na Irlanda e os rebeldes católicos perderam suas terras e seus direitos civis.

Morte e independência

– Com a perda de quatro safras consecutivas de batatas, cerca de 1 milhão de irlandeses morreram de fome ou doença, no período conhecido como “A Grande Fome”. Existe um monumento em Dublin sobre isso, olha só:

E o mais triste é saber que aconteceu de verdade.

– Isso fez com que houvesse uma debandada de irlandeses para os Estados Unidos, principalmente em Nova York. Foi formada uma forte comunidade irlandesa por lá, com reflexos culturais que são vistos até hoje.

– Todas essas dificuldades deram início às exigências para a independência, que só ficou mais concreta após a Primeira Guerra Mundial, com a criação de um parlamento irlandês não oficial e levantes sangrentos.

– A ilha então é dividida em duas para tentar apaziguar as coisas: Irlanda do Norte, ainda pertencente ao Reino Unido e República da Irlanda (ou Eire – que lindo ^^), um novo país independente. Essa divisão vigora até hoje, mas os problemas não acabaram por aí.

Em nome de Deus e do poder

– Os católicos da Irlanda do Norte não aceitaram bem o fato de continuar sobre o domínio protetantista inglês e também queriam a independência. Enquanto os protestantes que viviam por lá estavam felizes da vida. Isso não poderia resultar em coisa boa.

– As duas comunidades trocam tiros e bombas por anos, matando milhares de pessoas. Surge o IRA (Irish Republic Army), braço armado dos católicos, que bota para quebrar nos atos terroristas na Irlanda e na Inglaterra.

#Medo

– Eles continuam assim por mais de 20 anos quando, finalmente, é assinado o Acordo de Sexta-feira Santa, estabelecendo novos moldes para o governo na Irlanda do Norte. Um bom tempo depois, o IRA abandona a luta armada e promete seguir um caminho democrático.

– E, como última medida pacificadora, um protestante e um católico passaram a dividir o gabinete de Primeiro Ministro da Irlanda do Norte, para tentar trazer direitos iguais para ambos os lados.

– E, agora, ficam os votos para que os próximos anos sejam pacíficos por lá. De vez em quando, a polícia encontra algumas bombas perdidas por lá (#Medo), mas tudo parece estar bem.

UFA! Não é fascinante e perturbador perceber como a decisão (um pouco egoísta) de um rei no século XVI afeta a vida de milhares de pessoas seis séculos depois? Eu acho =)

Estou ainda mais encantada por esse país incrível, ah estou.

P.S. Faltam 33 dias \o/