A segunda maravilha irlandesa

Não é porque eu seja uma alcoólatra ou porque não tenha aproveitado direito o que a Irlanda oferece não, mas a coisa que eu sempre acreditei ser a obra-prima, a estrela, o que os irlandeses mais deveriam se orgulhar para sempre, é a sua Guinness. Uma cerveja antiga, apreciada mundialmente, deliciosa, criada por um irlandês visionário e genial, com uma história vitoriosa, de rápida ascensão e sucesso. Não poderia ser diferente.

E, na semana passada, eu tive acesso ao que eu chamo de “minha segunda maravilha irlandesa”. Era o dia de aproveitar o presente de aniversário que a Mags me deu, um par de ingressos para uma banda que toca música irlandesa legal e cool, não aquelas pega turistas do Temple Bar, ela disse. Mesmo sendo uma “girls night out”, como nunca fazemos, eu não estava muito empolgada não. Sei lá, depois de muito tempo indo do trabalho pra casa pro roteiro da viagem, acho que perdi a empolgação para sair. Mas era o meu presente de aniversário e todo mundo estaria lá (Mags e amiga, Tamis, Kitty e amiga, Mary Rose), então botei um vestido e disfarcei as olheiras do trabalho com maquiagem e encarei.

DSCN6837

Fui com a Mags e chegamos atrasadas (porque não é fácil colocar três bebês para dormir, jantar e se arrumar), então a banda já tinha começado no momento em que entramos, guardamos as bolsas e casacos e pegamos os drinks. A primeira impressão foi boa, fiquei animada. Mas eu ainda reparava nas pessoas dançando de forma estranha ao redor e apontava para a Tamires dizendo: “afee, olha isso!”. É, mal sabia eu o que estava para acontecer comigo…

DSCN7106

E a banda foi tocando, e a música foi entrando na minha cabeça, e a cerveja foi descendo pela garganta e, quando eu menos pude prever, estava dançando loucamente, totalmente absorta por aquele som celta, místico, lindo, emocionante. Eu não conseguia ver muito nada ao redor não, parecia que estava em transe. Quem sabe não é um tipo de poder mágico da música celta?

DSCN7143

E eu tinha vontade de chorar, à medida que dançava. E eu pingava suor, meu cabelo voava para todos os lados. E eu aplaudia forte, gritava, me sentia feliz. Que música poderosa! E constatações do tipo me vinham à cabeça: “se a música celta fosse como o rock ‘n roll, eu poderia dizer que essa banda toca heavy metal”, “isso é metal celta, porra! – e fazia o símbolo do metal (ok, culpa da cerveja)”, “agora eu entendi porque os celtas matavam cabras, até eu mataria uma cabra agora!”.

DSCN7129

No final do show, me sentia leve, como se eu tivesse deixado vinte quilos de preocupações, pensamentos, medos ali. Foi muito mais que um show, foi quase que uma experiência espiritual, aquela música e aquele ritmo poderoso nos abençoando para uma noite, um dia, uma vida melhor.

kila

Os responsáveis por tudo isso? KILA, uma banda de música folclórica irlandesa, formada em 1987, com impressionantes 16 álbuns lançados. A banda é composta por sete músicos oficiais, que tocam instrumentos como baixo, percussão, flauta, violino e uns malucos que eu nem sei o nome (=P) e alguns convidados em shows especiais. A maioria das músicas é só instrumental, mas eles cantam em algumas também e aí é que está o legal da banda: eles só cantam em gaélico. Quer maior valorização da cultura celta do que isso?

Adorei a música, adorei o espetáculo (com direito a explosão de papeizinhos prateados no final), adorei a vibe dos caras, suas roupas, seus cabelos, sua energia. Virei fã. E esse show definitivamente entrou para a minha lista de melhores-coisas-que-aconteceram-comigo-aqui e para a outra dos melhores-presentes-de-aniversário-da-minha-vida =)

P.S. Eu tenho que admitir, as melhores fotos desse post foram tiradas pela Tamires. Primeiro, porque eu não sei tirar fotos de shows. Segundo, porque eu lá queria saber de foto o quê! =P

Anúncios

Ah, os celtas…

Este sendo o último final de semana da Jubs aqui em Dublin (porque no outro ela iria viajar, antes de voltar para o Brasil), precisávamos fazer algo especial. E o destino escolhido foi as Midlands, terras médias, terra que possui tantos registros dos celtas, povo lindo e poético que eu tanto gosto =)

Como a região é muito inóspita, é impossível cobrir todos os pontos por transporte público. E a Jubs e Tamis (companheiras do dia), apesar de serem motoristas habilitadas, tem medo de dirigir na mão invertida (eu também teria!). A solução foi pegar um tour de um dia saindo de Dublin e, quer saber? Foi a melhor escolha! O tour cobriu bem os principais pontos de interesse e viajamos em um micro-ônibus, com um guia que explicava tudo e andava com a gente até as atrações, o que é inédito nesse tipo de passeio.

E lá vamos nós no ônibus, saindo às 8h da manhã da Suffolk St., falando sem parar para atualizar as novidades, até que tomamos uma bronca por estar falando muito alto (e demais). Mas quem disse que a gente parou? Era papo sobre a nova casa da Tamis (que acabou de ser contratada como au-pair live-in, assim como eu), o que fazer quando as crianças são mal-criadas, sobre a falta de higiene do povo aqui, os amores, os empregos, o tempo, moda, dinheiro, viagens. Pobres companheiros de ônibus! >.<

E a primeira parada foi o Hill of Tara, um complexo arqueológico repleto de monumentos antigos e, de acordo com a tradição celta, o lugar de onde o alto rei da Irlanda comandava todos os demais reis das outras províncias. A geografia de Tara é muito peculiar, com diversos morros que formam anéis se vistos de cima. Você para e pensa: “Como aqueles caras conseguiam fazer isso naquela época tão primitiva?”. Incrível!

Há muitas controvérsias sobre o verdadeiro papel de Tara na sociedade celta, mas a maioria dos estudiosos concorda que sempre foi de importância fundamental, sendo o palco dos rituais de inverno e verão, além de onde os futuros reis eram escolhidos, após passarem por uma série de desafios e, no final, tocar na pedra Lia Fáil (pedra do destino), que deveria soltar um “grito que seria ouvido por toda a Irlanda”, caso a pessoa fosse digna de ser rei.

Que sensação especial eu senti por estar ali e tocar aquela pedra, que representava tanto para eles (e que é mais antiga que as pirâmides do Egito!), olhando aquela paisagem, imaginando o tipo de festividades que ocorreram ali naquele chão em que eu pisava. Nostálgico. Mágico. Poético.

E a segunda parada foi esta igreja em ruínas, que eu não consigo lembrar o nome ou encontrar na internet (¬¬). Que visual, aquelas ruínas ao fundo, vacas no pasto, vento frio, dia nublado. Me senti em um filme de época, daqueles que tanto gosto s2

E a terceira parada foi o Trim Castle, famoso por ter sido cenário do filme Coração Valente, aquele com o Mel Gibson. Mas não é só por isso que ele merece destaque. Na verdade, esse é o maior castelo anglo-normando construído na Irlanda, ainda no século XII! Ele sempre foi um centro de administração e comércio do condado de Meath, no decorrer de todos os séculos seguintes, passando de pai para filho e sendo vendido algumas vezes, mas só foi vendido ao estado mesmo em 1993, quando se iniciou um trabalho de restauração.

E é uma pena que o tempo é curto. E eu corria que nem uma louca, tentando tirar fotos bonitas, ler as placas com a história do castelo, parar e sentir a emoção de estar ali. Bom, as fotos ficaram legais. E tirei fotos das placas, para ler depois. E, sim, parei e só observei tudo aquilo por um tempo, maravilhada.

Mas, infelizmente, o castelo é fechado para visitação. Bom, não para a gente. Eu estava por ali e, de repente, vejo uma porta aberta. Grito para as meninas, vamos entrar! E subo as escadas, a Tamires atrás de mim e, quando chegamos lá, sai um funcionário e diz que não podemos entrar. Eu faço uma carinha de gato do Shrek e digo que é uma pena, que deve ser tão lindo por dentro. Acho que ele se sensibiliza, por que deixa a gente dar uma olhada rápida e tirar algumas fotos. Opa! E vejo um salão enorme e escadas que levam para os andares superiores. E imagino os banquetes que foram realizados ali, caindo uma lágrima! Mas eu me atrapalho com a emoção. Olho tudo e tento tirar fotos, mas elas não saem bonitas ou lógicas. E logo ele diz que temos que ir embora. Desço as escadas até meio tonta, não acreditando que conseguimos entrar em lugar tão secreto e até sagrado ^^

E a quarta parada foi Loughcrew, um dos quatro maiores túmulos pré-históricos da Irlanda, também mais antigo que as pirâmides do Egito, acreditando-se terem sido construídos em 3.000 aC. O túmulo consiste em câmeras cobertas por um morro e totalmente ornamentadas com inscrições por dentro, onde as cinzas dos mortos eram depositados (é, nessa época eles incineravam os corpos antes de enterrá-los). O inacreditável do lugar é que, não se sabe como direito, mas ele foi projetado de forma que, no equinócio de primavera e outono, os raios de sol entrem e iluminem as câmeras internas. Oi, como os caras conseguiam calcular isso e projetar a posição das pedras para que funcionasse? *_______*

Para chegar lá, subimos um morro por uns 10 minutos e eu não sabia se olhava a paisagem, tirava fotos ou me concentrava em respirar com tanto esforço físico. E lá chegamos e nos dividimos em dois grupos para entrar dentro do túmulo. Enquanto esperávamos, tiramos fotos, eu ajoelhando no meio dos cocos das ovelhas para pegar o ângulo perfeito, tentando registrar perfeitamente aquela paisagem sem igual. E chegou a nossa vez de entrar. Você tem que abaixar, pois o teto da entrada é muito baixo. E é escuro, precisamos de uma lanterna para poder ver as inscrições nas pedras. É emocionante ver como aquele povo primitivo já se importava com a morte, sempre um mistério, e se preocupava em construir um santuário para as cinzas de seus entes queridos.

Nessa região, paramos para almoçar em um café no meio do nada, lindo e remoto. Eu trouxe os meus sanduíches de casa, já que agora estou no projeto economia para a viagem final, que falaremos em breve.

E a quinta parada foi a Jumping Church, que tem esse nome devido à história de que, um belo dia, um não cristão foi enterrado no solo sagrado da Igreja mas, durante a noite, a parede da igreja misteriosamente “pulou”, deixando o corpo do pobre coitado de fora do solo sagrado, já que ele era indigno de tamanha consideração.

Aqui eu comecei a sentir um calafrio, ao perceber que praticamente só havíamos visitados cemitérios. E esse, ao redor as ruínas da igreja, era especialmente sombrio, a grama alta, abandonado, velho.

E a sexta parada foi Monasterboice, um assentamento cristão para práticas religiosas e ensinamentos, fundado no século V por St. Buithe. Mais um cemitério, mais organizado, tão sombrio quanto o outro, cheio das famosas cruzes altas da Irlanda, que são estruturas decoradas com as histórias da Bíblia e que os monges utilizavam para ensinar os evangelhos.

E a mais famosa é a Muiredach’s High Cross, com 5,5 metros de altura, considerada a melhor do tipo em toda a Irlanda. Ela é decorada com histórias do Novo e Velho testamento da Bíblia e você pode ver em detalhe cenas de Adão e Eva e o Juízo Final, por exemplo. Muito legal =) Bom, mas acho que agora chega de cemitérios por hoje né?

E a última parada foi a cidade de Drogheda, importante por ser o último ponto de parada do Rio Boyne antes de desembocar no mar. Por lá, visitamos a St. Peter’s Cathedral, bonita e famosa por ser o lar dos restos mortais de St. Oliver Plunkett, um padre católico que foi perseguido, julgado por traição e morto na época da reforma. Gente, é assustador ver a cabeça dele ali, tão intacta e, sei lá, viva. Não tirei foto dele, achei falta de respeito >.<

E depois fizemos um tour a pé pelos pontos de interesse de Drogheda, o guia contando tudo sobre Crownell e eu muito interessada ouvindo e me surpreendendo, como sempre, como essa questão do catolicismo x protestantismo destruiu vidas, desde o século XVI até poucos anos atrás. Ah, Henrique VIII. O que você me aprontou, hein?

Como ainda nem havia escurecido quando voltamos a Dublin, resolvemos tomar uma para fechar o dia. Fomos ao pub Turk’s Head, no Temple Bar, onde o pint custa só 3,50 até às 20h. Algumas Paulaners depois, partimos para o pub PorterHouse, casa de milhares de cervejas especiais e daquele pratão sensacional de comida que adoramos. Comemos, bebemos, ouvimos música. E, feliz da vida, mas vendo cruzes ao fechar os olhos, fui para a casa.

P.S.: No domingo, trabalhei de manhã, levei a Jubs para conhecer Howth à tarde (com direito a descer o penhasco do medo e comer o melhor crepe da história >.<) e fui visitar minha amiga Melissa no hospital (internada há dois dias, sem causas muito definidas. Estou muito triste com isso. Se eu já me sinto sozinha, sã e salva, imagina ela, doente?).

P.S.: E eu tive um momento nostalgia, ao lembrar que todas as vezes em que estava solteira, planejava ir à uma noite celta no Blackmore Rock Bar, com bandas que tocam um som diferente e cabeludos que parecem elfos. É, naquela época eu nem imaginava que um dia pisaria no solo sagrado dos celtas… Como a vida é engraçada, não é?