A “cuppa” tea?

Um dos hábitos mais famosos dos britânicos é o tal do chá da tarde. Vemos a cena do chá presente nos filmes, nos livros, em piadinhas e até em guias de turismo. Agora, será que a realidade do dia a dia é tão exagerada assim como vemos por aí?

Sobre os britânicos, eu não sei dizer. Mas os irlandeses são grandes bebedores de chá sim, senhor! E, como muito dos hábitos dos dois povos é o mesmo, eu acredito que o que serve para um, serve para o outro. Antes de vir para cá eu ouvia dizer que, para o irlandês, qualquer ocasião é uma oportunidade para beber cerveja. Depois de todo esse tempo com as minhas duas famílias posso dizer que qualquer ocasião é oportunidade para beber chá, isso sim!

De manhã, as chefas gostam de tomar café. Mas, durante o resto do dia, o chá se faz presente. No meio da manhã, após o almoço, à tarde, antes de dormir. Ah, ela saiu para ir ao mercado? Na volta ela tomará um chá, com certeza. Amigas vieram visitar? Opa, liga a kettle e prepara o chá para todo mundo! Ela disse que está com sede? Será que vai beber água? Imagina, bebe chá que é melhor para refrescar, ué?!

O chá do dia a dia é básico, o famoso earl gray ou “regular tea”, como eles dizem. Mas, para ocasiões especiais, entram chá de ervas, chás envelhecidos, chás australianos, indianos e por aí vai. A maioria das pessoas por aqui toma o chá sem açúcar, bleh! Já o meu tem “two sugars”, o que significa duas colheres de açúcar. E quando eu digo “two sugars, please” sempre recebo uma cara de reprovação, como se estivesse estragando o chá ¬¬

Mas a regra mais fundamental do chá aqui é a presença do leite. Funciona assim: você coloca o sachê do chá, enche a caneca de água e deixa apenas uns três dedos para a borda, espera um pouco, tira o sachê e completa com dois dedos de leite gelado. Não existe chá sem leite aqui. Pode parecer estranho, mas é genial e faz total sentido, pois fica muito, muito melhor!

Quase nunca, o chá vem sozinho. Um dia é um cookie, no outro um pedaço de chocolate, um bolo ou uma tortinha. Quando eu comecei a trabalhar com a Mags e ela me oferecia chá, eu achava que ela estava sendo legal, pois sempre acompanhava o chá com algo. Mas hoje eu percebo que, para eles, é quase um pecado tomar o chá sem nada junto =P

E sabe qual é o engraçado da história? Essa moda pega. Claro, eu sempre gostei de chá, mesmo no Brasil. Mas, quando eu ainda morava no apartamento com as meninas, ficava mais no leite com chocolate. Foi mudar aqui pra casa da Mary Rose e comecei a tomar chá todos os dias de manhã, além do chá à tarde na Mags. O inverno chegou e comecei a tomar o chá todas as vezes em que chegava em casa, para esquentar. Não vivo mais sem!

Hoje mesmo, após dar uma voltinha no Sea Front e enfrentar o vento absurdamente gelado, eu e o Airt tomamos chá (earl gray para mim, camomila para ele) e comemos pedaços do papai noel de chocolate que ele ganhou de natal. Vê se pode, até o pequeno de dois anos e meio é viciado no negócio!

Claro que essa é a versão pouco glamourosa da coisa, porque é o chá do dia a dia, no meio das tarefas, uma pausa para relaxar. Mas alguns restaurantes e hotéis servem a versão de luxo do chá da tarde, com louças bonitas, diversos bolos decorados, biscoitos finos. Eu sempre quis ir, mas o preço é bem alto. Acho que vou me contentar com o meu chá na caneca mesmo, com um cookie de chocolate para acompanhar =)

P.S. Estou a três dias de viajar. Estou com dor de barriga. Obrigada.

A segunda maravilha irlandesa

Não é porque eu seja uma alcoólatra ou porque não tenha aproveitado direito o que a Irlanda oferece não, mas a coisa que eu sempre acreditei ser a obra-prima, a estrela, o que os irlandeses mais deveriam se orgulhar para sempre, é a sua Guinness. Uma cerveja antiga, apreciada mundialmente, deliciosa, criada por um irlandês visionário e genial, com uma história vitoriosa, de rápida ascensão e sucesso. Não poderia ser diferente.

E, na semana passada, eu tive acesso ao que eu chamo de “minha segunda maravilha irlandesa”. Era o dia de aproveitar o presente de aniversário que a Mags me deu, um par de ingressos para uma banda que toca música irlandesa legal e cool, não aquelas pega turistas do Temple Bar, ela disse. Mesmo sendo uma “girls night out”, como nunca fazemos, eu não estava muito empolgada não. Sei lá, depois de muito tempo indo do trabalho pra casa pro roteiro da viagem, acho que perdi a empolgação para sair. Mas era o meu presente de aniversário e todo mundo estaria lá (Mags e amiga, Tamis, Kitty e amiga, Mary Rose), então botei um vestido e disfarcei as olheiras do trabalho com maquiagem e encarei.

DSCN6837

Fui com a Mags e chegamos atrasadas (porque não é fácil colocar três bebês para dormir, jantar e se arrumar), então a banda já tinha começado no momento em que entramos, guardamos as bolsas e casacos e pegamos os drinks. A primeira impressão foi boa, fiquei animada. Mas eu ainda reparava nas pessoas dançando de forma estranha ao redor e apontava para a Tamires dizendo: “afee, olha isso!”. É, mal sabia eu o que estava para acontecer comigo…

DSCN7106

E a banda foi tocando, e a música foi entrando na minha cabeça, e a cerveja foi descendo pela garganta e, quando eu menos pude prever, estava dançando loucamente, totalmente absorta por aquele som celta, místico, lindo, emocionante. Eu não conseguia ver muito nada ao redor não, parecia que estava em transe. Quem sabe não é um tipo de poder mágico da música celta?

DSCN7143

E eu tinha vontade de chorar, à medida que dançava. E eu pingava suor, meu cabelo voava para todos os lados. E eu aplaudia forte, gritava, me sentia feliz. Que música poderosa! E constatações do tipo me vinham à cabeça: “se a música celta fosse como o rock ‘n roll, eu poderia dizer que essa banda toca heavy metal”, “isso é metal celta, porra! – e fazia o símbolo do metal (ok, culpa da cerveja)”, “agora eu entendi porque os celtas matavam cabras, até eu mataria uma cabra agora!”.

DSCN7129

No final do show, me sentia leve, como se eu tivesse deixado vinte quilos de preocupações, pensamentos, medos ali. Foi muito mais que um show, foi quase que uma experiência espiritual, aquela música e aquele ritmo poderoso nos abençoando para uma noite, um dia, uma vida melhor.

kila

Os responsáveis por tudo isso? KILA, uma banda de música folclórica irlandesa, formada em 1987, com impressionantes 16 álbuns lançados. A banda é composta por sete músicos oficiais, que tocam instrumentos como baixo, percussão, flauta, violino e uns malucos que eu nem sei o nome (=P) e alguns convidados em shows especiais. A maioria das músicas é só instrumental, mas eles cantam em algumas também e aí é que está o legal da banda: eles só cantam em gaélico. Quer maior valorização da cultura celta do que isso?

Adorei a música, adorei o espetáculo (com direito a explosão de papeizinhos prateados no final), adorei a vibe dos caras, suas roupas, seus cabelos, sua energia. Virei fã. E esse show definitivamente entrou para a minha lista de melhores-coisas-que-aconteceram-comigo-aqui e para a outra dos melhores-presentes-de-aniversário-da-minha-vida =)

P.S. Eu tenho que admitir, as melhores fotos desse post foram tiradas pela Tamires. Primeiro, porque eu não sei tirar fotos de shows. Segundo, porque eu lá queria saber de foto o quê! =P

E o que se come por aí?

Eu era uma recém-chegada a essas terras, com muitas listas de coisas a fazer (porque a Talita jamais vai a um lugar sem saber o que encontrará por lá) e tentando descobrir alguns segredos a mais, contados pelos nativos dessa ilha molhada.

E eu pergunto pra Mags, em uma das minhas primeiras tardes com os meus bebês: “qual é a boa da culinária irlandesa?”. Qual não foi a minha surpresa quando ela diz: “nenhuma, esse sempre foi um país muito pobre, nunca desenvolvemos um grande hábito gastronômico”.

Fiquei decepcionada, me imaginava experimentando coisas diferentes e interessantes. Até procurei nos restaurantes, para ver se ela estava sendo injusta, mas não. De “típico” eles só servem as mesmas coisas: fish and chips (literalmente, peixe e batata frita) e Irish stew (ensopado de carne GORDA com legumes). Então me resignei a apagar a categoria “culinária” da lista de coisas a descobrir e passei a me contentar com a minha própria comida.

Mas hoje eu posso dizer que acho que a Mags não entendeu a minha pergunta. Eu queria saber quais eram os pratos típicos, o que caracterizava a cozinha deles, não necessariamente o que era estupidamente gostoso, famoso e servido nos restaurantes por ai. Queria saber a comida do dia a dia, aquilo que eles cresceram comendo, aquilo que eles servem para os seus filhos. Hoje eu vejo que sim, eles tem tradição culinária.

Um fato não tão surpreendente e que eu eu deveria ter previsto é que, graças ao domínio da Inglaterra, eles comem basicamente as mesmas coisas e tem mais ou menos os mesmos hábitos (tirando algumas coisas especiais que os irlandeses adoram destacar, como que para assegurar que eles tem sua identidade própria).

Então, depois desses 10 meses de convivência com famílias irlandesas, mais tudo o que eu li sobre a culinária inglesa nos livros do Harry Potter e mais algumas informações (e degustações) extraídas da época em que eu estava saindo com o cara-brasileiro-neto-de-ingleses, posso dizer que sim, essa lista do meu cronograma foi respeitada.

E esses são os meus favoritos =)

# Café da Manhã

Porridge



O famoso mingau de aveia, que o Airt AMA. Não sou muito fã da versão deles não, prefiro a que o meu pai fazia pra mim todos os sábados antes da aula de inglês =)

Toast and butter

Aqui não tem padaria para todos os lados como é no Brasil não. Então, a alternativa é comprar pão de forma no supermercado e tostar na torradeira, lambuzando de manteiga depois.

Sausages



Não é lenda não. Às vezes, eles comem salsichas no café da manhã sim! As salsichas deles não são como as nossas, são mais parecidas com linguiças na verdade, o que torna essa visão delas servidas com café e chá ainda pior na minha opinião. As minhas famílias não são muito adeptas a esse hábito, só em dias em que o café da manhã precisa ser reforçado, ufa!

Cereal and milk



O negócio do cereal no café da manhã é coisa séria aqui (e em outros países como os Estados Unidos, pelo que vemos nos filmes). Você vê mães comprando cinco caixas de cereal por vez no mercado e dizendo para a caixa “ai se eu esqueço uma delas!”. Aqui em casa mesmo, temos três versões diferentes para apenas duas pessoas e meia =P

# Almoço
(O almoço é, geralmente, uma refeição mais leve para eles).

Beans on toast



Perece nojento, se pensarmos no nosso feijão brasileiro. Mas o feijão deles aqui é diferente, é enlatado, bem clarinho e com molho de tomate adocicado. E, por incrível que pareça, fica bom em cima de uma torrada quentinha, com um pouquinho de queijo por cima.

# Jantar
(Servido entre 18h e 19h, no máximo, diga-se de passagem)

Fish Pie



Não é bem uma torta, mas sim um tipo de purê de batata com diferentes tipos de peixe por dentro (salmon, peixe branco e camarão, geralmente) e ervihas. Parece comida de bebê, mas é bom =)

Shepherd pie



Quase que um escondidinho brasileiro, substituindo a mandioca por batata e a carne seca por carne de boi ou carneiro moída. A Mary Rose tem uma versão própria, meio indiana, com sementes e uns temperos malucos. Prefiro a versão tradicional, obrigada.

Beef or Chichen Pie



Ah, abençoado seja esse povo por suas tortas! Eles gostam e consomem tanto que você encontra a pastry (conhecida horrivelmente como “massa podre” no Brasil) no supermercado, já pronta para montar a torta. Elas não são secas e com recheios comportados como os nossos não. Os recheios deles são acompanhados de muito molho, que escorre quando você corta um pedaço, nham, nham! Além das versões que eu mencionei, tem aquela famosa (e nojenta) feita de rim, que eu jamais chegarei perto na minha vida e tenho dito.

Gravy



Um molho escuro e cremoso, feito da borra da carne que você acabou de cozinhar, para servir com o seu assado e vegetais. Eu AMO, AMO, AMO gravy *______*

Yorkshire pudding



Um tipo de pão assado, de massa bem levinha e formato disforme, que você come com carne assada, vegetais e GRAVY! Olha, vou te dizer… Acho que só feijão com arroz é uma combinação melhor que Yorkshire pudding e gravy ^^

Eu pretendo reproduzir muito disso quando estiver de volta em casa. Família e amigos, estão convidados =)

P.S. As coisas que acompanham o chá (*______*) são um capítulo à parte e eu falo depois sobre isso.

P.S. Uma família que afirme comer com qualidade não come fish and chips em casa, por isso ele não entra nessa lista, apesar de ser um dos meus favoritos também. E na única vez em que eu comi o tal do Irish stew, a carne era tão gorda (e nojenta) que eu tive dor de barriga, então não quero nunca mais pensar nesse prato >.<

P.S. Claro que eles comem outras coisas também em casa, derivadas de outras culturas, como curries, noodles, pastas, omeletes, saladas. Aliás, eles amam comer coisas diferentes, muito mais do que o trivial deles. É, na verdade o trivial acaba sendo meio ilustre ¬¬

Playgroup para ele, encontro de comadres para mim

Imagina o que é cuidar de uma criança de dois anos e meio, cinco dias por semana, seis horas por dia? Chega uma hora, apesar de que você ame o pequeno com todas as forças do seu coração, que você precisa de uma folga. Aí que entra o querido-abençoado-tudo de bom playgroup!

DSCN6881

Funciona assim: você chega naquela grande sala cheia de brinquedos, larga a sua criança ali no meio, pega uma xícara de chá e um bolinho, paga uns trocos por isso (2 euros por semana) e vai se sentar nas cadeiras, batendo papo com as outras mães e au-pairs (com comentários do tipo: “nossa, o meu bebê pegou virose na semana passada, que pesadelo!” ou ainda “menina eu não gosto dessa marca de wipes que você usa não, o cheiro é muito forte!” =P), só levantando para acudir a sua criança em casos de quedas, brigas com outras crianças, choros ou pedidos especiais (“play me, Didi!”).

DSCN5462

Eles são muito populares aqui em Dublin, tem mais de um por bairro. Eu vou no St. Anthony’s Playgroup, que é realizado todas as terças-feiras, das 10h30 às 13h (mas só ficamos até às 11h30, porque o B-Boy precisa dormir e almoçar antes de ir pra escolinha), no antigo prédio da St. Anthony’s Church (que hoje tem um prédio novo nos fundos).

Meu B-Boy é esperto, gosta de estar cercado por belas garotas *___*

Meu B-Boy é esperto, gosta de estar cercado por belas garotas *___*

Eu e o Airt curtimos muito. Ele come 2 biscoitos e 1 bolo (o nosso acordo semanal porque, se eu deixar, ele come TODOS ¬¬), brinca com os carrinhos, corre pra lá e pra cá. Eu tomo um chá, como um bolinho, bato papo, sento. E é melhor ainda porque temos amigos por lá! A antiga au-pair espanhola da Mags, a Suzana, leva as suas novas crianças (gêmeas de 1 ano e meio, Roisin e Guiva) lá também. Então o Airt brinca com as meninas e eu e a Suzana batemos papo. Meu encontro de comadres favorito =)

Na semana passada, levei o Airt para lá pela última vez, já que deixo a Irlanda, meus empregos, minhas crianças, em poucos dias. Foi triste saber que acabou. É triste saber que tudo está acabando. Será que eu ainda tenho desprendimento sobrando, depois de tudo do que me desprendi nesse ano?

Clontarf, bairro doce bairro

DSCN5398

Desde que comecei a trabalhar na Mags, que morava antigamente em Killester, eu frequento o bairro de Clontarf. Naqueles raros dias de calor, com as árvores de cerejeiras carregadas de flores, nas muitas horas de passeios com os bebês no carrinho, eu gostava de descer a Stiles Road e dar de cara com o mar, no Sea Front de Clontarf. Mal sabia eu que, em pouco tempo, poderia chamar esse bairro de meu =)

DSCN3150

Me lembro que, no caminho para a casa da Mary Rose, no dia da mudança, com as malas e cuias no bagageiro do táxi, eu olhava o Sea Front, a grama verde brilhando com os raios de sol, as lojinhas e café e imaginava: “ah, como eu sou sortuda de vir morar aqui”! Sim, de fato. O lugar é excelente, com tudo o que se precisa e muito perto do centro, porém com aquele clima de bairro e com uma vista espetacular do mar a poucos minutos da sua casa.

DSCN5396

Clontarf, do gaélico, que significa “prado do boi”, é localizado no norte de Dublin. A região é famosa historicamente, pois foi palco da batalha de Clontarf, em 1014, quando Brian Ború, o famoso rei-herói-celta-irlandês derrotou os vikings e seus aliados que brigavam por conquistas de terras. Quando os anglo-normandos chegaram, mais batalhas aconteceram por aqui, como em todo o resto da Irlanda. Igrejas e castelos foram construídas, depois destruídas, depois construídas novamente.

DSCN6854

E, após tudo isso, o que fica hoje é um bairro muito do agradável! É comum ver os moradores daqui andarem com os seus cachorros ou filhos no Sea Front, nas primeiras, segundas ou últimas horas do dia. Eles também param nos milhares de cafés ou restaurantes fofos que existem na Clontarf Road. E também fazem compras no Nolan’s, o incrível mercado com cara de lojinha de bairro, cheio de delícias fresquinhas.

DSCN5866

Não é demais? Eu curti o máximo que pude, conciliando a rotina do B-boy com os diversos passeios interessantes a fazer. Andamos, brincamos, corremos, pulamos, jogamos pedrinhas, no Sea Front umas 66465458980 vezes, com calor ou frio. Levamos o Mossy-Messer para passear quase todas as manhãs daquelas três semanas. Desbravamos os mistérios do St. Anne’s Park, o bosque encantado. Fomos à biblioteca. Fomos ao Nolan’s comprar desde laranjas a saquinhos de fraldas, o Airt sempre pagando o dinheiro para a “lady”.

DSCN4297

E, para completar a minha paixão por aqui, não é que a prefeitura iluminou a “vilinha” perto de onde eu moro, já no clima lindo de Natal? É tão legal descer do ônibus, sentir aquele vento congelante no rosto e ver todas as luzinhas acesas a caminho de casa. É, Clontarf… Vou sentir a sua falta ^^

DSCN6918

Nursery Rhymes

Eu aprendi muita coisa trabalhando como au-pair nesses 8 meses.

Aprendi a ter paciência de uma forma que nunca imaginei que seria possível na vida. Aprendi a amar os meus pequenos como se eles tivessem saído do meu útero. Enriqueci o meu vocabulário com palavras como nappy (fralda), buggy/pram (carrinho), naughty (levado) e bold (atrevido), me perguntando se isso te será útil naquele tão sonhado emprego futuro em uma multinacional. E eu também aprendi a cantar musiquinhas infantis em inglês! E elas são tão, mas tão grudentas que me pego cantando-as fora do horário de trabalho também >.<

Existem diversos tipos de músicas, desde de temas de desenhos animados a aquelas de bandas infantis. Mas as que eu mais gosto são as “Nursery Rhymes”, poemas cantados para crianças, populares no Reino Unido e aqui na Irlanda. Os primeiros registros de Nursery Rhymes datam da Idade Média, mas foi apenas no século XVIII que elas começaram a ser gravadas profissionalmente.

Elas são músicas curtinhas, com rimas, que tratam dos mais diversos temas, alguns inocentes e outros até meio malvados, mas todas são bem divertidas no geral. As minhas crianças adoram! E elas são excelentes para esse processo de começar a falar, pois as rimas são fáceis e repetitivas, o que ajuda muito.

E elas são tão populares por aqui que até os Wiggles, famosa banda de músicas infantis, gravou um DVD só com Nursery Rhymes. Eu acho incrível, pois mantém a tradição das músicas, mas em uma linguagem moderna e atrativa para as crianças de hoje em dia, com cenários, figurinos e alguns efeitos especiais =)

As nossas (s2) músicas favoritas são:

The Grand Old Duke of York
Conta a história do tal Duque de York, que tinha um exercito e marchava os soldados para todos os cantos. Quando ela toca, os bebês começam a bater os pezinhos com força no chão, marchando ao redor da sala =P

Ring a Ring O’Roses
Essa tem uma tema macabro. Diz-se que foi criada na época da peste negra, porque a letra diz: “um bolso cheio de lenços, e espirra, espirra, todos nós caímos”. Quando a Mags me contou, quase desisti de ouvir. Mas os bebês adoram! Eles dão as mãozinhas e quando eu canto “tissue, tissue”, eles abaixam e quando eu canto eu “we all fall down”, eles deitam no chão! *____*


Jack and Jill

Essa é macabra também! O pobre do Jack subiu no morro para encher um balde de água, mas caiu e quebrou a cabeça. Mas o Airt adora, brincamos de Jack and Jill nos morrinhos do Sea Front =P


Fish Alive

Conta a história de um homem que foi pescar, mas soltou o peixe porque ele mordeu o seu dedo. Essa é bonitinha e canto sempre para o Airt. É excelente porque tem os números de 1 a 10 e ele está quase decorando a sequência dos números, de tanto que cantamos =)


Miss Polly

Essa é a mais fofa e todos eles AMAM! Conta a história da Miss Polly, que tinha uma boneca doentinha, chamou o médico, ele receitou o remédio e disse que traria a conta no dia seguinte. Eles amam e apontam o dedinho quando vem o pedaço “Miss Polly, put her straight to bed!”.


E muitas, muitas, muitas outras como “The wheels on the bus”, “Row, row, your boat”, “Old McDonald”, “Bingo”, “Twinkle little star”, “London bridge is falling dawn” e por aí vai.

Mas a música favorita de todos eles, de longe, não é nursery rhyme, mas sim o tema de abertura do desenho “Fireman Sam”. O Yoyo, excelente na fala como é, sabe cantá-la de cor e salteado. O Airt, mesmo sendo um pouco atrasado na fala, já sabe cantar a música quase inteira, pegando palavras novas a cada vez que cantamos. Os bebês ainda estão no processo, mas conseguem falar “door” e “Sam”. Já está bom ^^


Também temos algumas músicas criadas pela Mags =P

“Berto (ou Tutu, ou Allie, ou Yoyo), the Berto man
I drink all the milk I can
I eat all my dinner
I’m such a winner
I’m Berto, the Berto man!”

“Go Tita, go Tita
Go Tita de Lima”

“Go Yoyo, go Yoyo
Go Yoyo Gaidoni”

E a música do Airt, que é uma que ele ouviu a Mary Rose cantar um dia no carro, mas só sabe repetir esse pedaço: “Ah, ah, follow”. E se você tenta cantar também, ele diz: “No!!!! Me ah, ah, follow!!”. Como eu posso com isso? ^^

P.S. Essa noite eu sonhei pela primeira vez com algo terrível, que vai acontecer de verdade. Sonhava que estava no Brasil e me acabava de chorar vendo fotos e vídeos das minhas crianças. Estou tentando me preparar psicologicamente para deixá-los, mas vai ser difícil demais. Será que eu tenho tanto desprendimento assim?

P.S. Esse final de semana foi um de poucos acontecimentos. Trabalhei com o Airt por algumas horas no sábado (com uma ida ao parque, comer FIVE CAKES e brincar no parquinho) e no domingo (assistindo Procurando Nemo, porque “man got MEMO in the boat!!!”). No tempo que sobrou, eu finalizei o roteiro dos meus dias em Berlim, com a cabeça rodando de tanta informação sobre a Segunda Guerra Mundial e a Alemanha Socialista.

Feliz, o aniversário

Pois é, eu fiquei mais velha. E, sim, estou longe da minha família, namorado e amigos, que são aqueles que fazem o aniversário das pessoas ter significado. Mas não, eu não passei o dia sozinha, comendo sorvete no pote e me acabando de chorar.

Bem, chorar eu chorei, mas foi somente por bons motivos. Somente por perceber que mesmo longe, a minha família ainda está comigo. E somente por perceber que eu também tenho uma família aqui, que eu amo MUITO e que vou levar para a vida toda.

Mas vamos do começo.

O dia começou bem, com o bom-dia que dei para o Airt, o lembrando da data. Ele me deu um beijo tímido, mas veio bonzinho tomar café da manh, o que eu entendi como um sinal de respeito pelo meu aniversário. Depois disso, todas as vezes em que eu pedia “birthday kisses” ele me dava, todo cheio de amor e baba. Ah, e eu te dou todo o meu amor também, buddy. S2

Dei uma olhadinha básica no Facebook, para ver algumas mensagens de aniversário. Aí veio o primeiro choro do dia, ao ver as fotos que a Mamis havia postado, eu e ela, ela e eu. Juntas, sorridentes, felizes. Tão simples, tão natural. Oh, my baby. Our love is definitely true. Esse é o meu primeiro aniversário que passamos separadas, é difícil. Mas será o último, já prometi para ela =)

Vejo também a mensagem que o meu amor me mandou, comparando a data à aquela de um ano atrás, quando ainda estávamos começando a nos conhecer, sem saber onde pisar e o que esperar. Eu já sabia que ele era diferente, quem mais poderia me chamar pelo significado do meu nome em hebreu, sem eu nunca ter contado? Ele já via sua Menina em mim e eu já via todo o potencial dele para me fazer feliz. Apesar da distância e tristeza de hoje, temos que ficar felizes, ele disse, porque o difícil já aconteceu. Nos conhecemos, nos amamos, descobrimos que somos almas gêmeas. Agora é só esperar mais 70 dias e tudo vai se resolver.

Lágrimas enxugadas, era a hora de enrolar os brigadeiros e beijinhos que eu havia feito no dia anterior, para adiantar o processo (já que fazer isso na companhia de uma criança de dois anos não é fácil =P). Ops, mas descubro que a massa do brigadeiro virou pedra. E agora? Penso: “Ou você joga fora e mente pra todo mundo, dizendo que brigadeiro é ruim demais e que você resolveu não fazer ou você tenta consertar”. Optei pela segunda alternativa. Mas no processo, tive o meu segundo choro do dia, ao tentar desgrudar o negócio do prato com a faca, cortando o meu dedo. Meio feio, daqueles que fariam o meu irmão se sentir fraco, como ele diz. Mas não tenho tempo para isso, vamos em frente. Coloco tudo na panela, acrescento manteiga, leite e qualquer coisa para amolecer o tijolo de brigadeiro. Deu certo =)

Fiz tudo em quarenta minutos, o Airt como meu assistente “pouring coconut rain all over the balls”. Limpei a cozinha em quinte minutos, o Airt como meu assistente, perguntando “me eat that?” para as colheres, pratos, tigelas e tudo que estava sujo de chocolate.

Rotina normal depois disso. No caminho para a Mags, após deixar o Airt na creche, encontei com a Tamis no centro. Acontece que ela foi anteontem na Mags, para conhecer os bebês e ver a possibilidade de ficar com a minha vaga depois que eu sair. E a Mags, fofa como é, fez o convite para a festinha, que ela prontamente aceitou. E dela, ali em frente ao Spire, eu recebi o meu segundo beijo de aniversário, com um lindo bracelete irlandês (para lembrar da terra que nos uniu) e uma miniatura de uma cruz-alta irlandesa (para lembrar das nossas aventuras pelas terras celtas).

Fomos juntas para a Mags, onde sou recebida por beijos e abraços dos meus lindos, únicos, preciosos, amados trigêmeos em meio a bexigas e risadas. A Kitty está por lá também e me dá um abraço. Ficamos por ali bagunçando, até que a Mags chega com o Yoyô e ele vem, abre a porta segurando uma bexiga, com um sorriso tímido no rosto e diz “Happy Birthday, Tita!”. Ok, meus olhos ficaram embaçados aqui.

Logo a Mags diz que eles tem que pegar algo na cozinha e todos os bebês vão atrás. Vou também e logo me vem o Yoyô com um cartão, a Mags dizendo que ele colou os adesivos. Abro e está escrito “We love you” com o nome de todos, Mags, Bepi, Yoyô, Alie, Tutu e Berto. Aí eu não resisto, choro, choro. Choro por sentir o amor que tenho por todos eles explodir aqui dentro. Choro de alegria, por estar ali perto de pessoas(inhas) tão preciosas =)

A Mags me dá também um envelope, com um par de ingressos para um espetáculo de música irlandesa, não aqueles safados do Temple Bar, mas um “cool”, como ela disse. Muito legal, fiquei feliz =)

Depois disso, eu e a Tamis ficamos com os bebês na sala, enquanto a Mags e a Kitty faziam os preparativos da festa na cozinha. Horas depois, vem o Yoyô e diz a frase habitual das cinco da tarde “it’s dinner time”, fazendo os bebês saírem correndo para a cozinha. Quando entro lá, vejo uma mesa linda, cheia de comidinhas gostosas, como o omelete espanhol (fritada de batatas, ovos e cebola), ovos com salmão e maionese, filés de frango frito, azeitonas, pão de alho. Finger food, como eles chamam, perfeito para festinhas ^^

Comemos, ajudando os bebês entre uma garfada e outra. Em determinado momento, só o Allie estava na cadeirinha (sempre o bom moço, meu Al-the-ball). Os outros dois rascals estavam no meu colo e no da Kitty, comendo do nosso prato. Vê se pode? Logo chega a Mary Rose e o Airt, com um lindo kit de cosméticos e um cartão do “BÓÓÓÓB, the Biulder”. O Airt pouco liga para mim, os brinquedos do Fireman Sam do Yoyô são mais atrativos, eu acho.

Terminamos de comer e chega a hora do parabéns. Cantamos a música, a Tamis gravando tudo. E, como prometido há semanas atrás para os dois, deixo o Yoyô e o Airt soprarem as minhas velinhas. Meus B-Boys! Comemos bolo, comemos docinhos, damos bolo para os bebês, damos docinhos para os bebês (o Airt e o Yoyô não precisaram de incentivo, estavam atacando tudo por conta >.<). Nessa altura do campeonato, os bebês já estavam muito cansados e começavam a ficar irritados, chorando por tudo. Hora de iniciar os preparativos para dormir.

Trazemos todos para a sala, colocamos Fireman Sam na TV e eu troco a fralda e ponho o pijaminha de todos eles, com a ajuda da Tamis. Organizamos a bagunça dos brinquedos e partimos para a cozinha, que estava em estado de calamidade pública depois da festa. Com a ajuda dela, em dez minutos estava tudo resolvido.

Aliás, o que eu teria feito no dia de hoje sem ela, me diz? A Tamis é daquelas do tipo “pau para toda obra”, sabe? Tamis, vamos para Belfast daqui a três dias? Opa. Tamis, vem aqui em casa comer hot-dog? Opa Tamis, vamos fazer uma trip maluca pelo Reino Unido na virada do ano? Opa. Tamis, vamos lá brincar com as minhas 67574 crianças? Opa. Ela é assim. E estou muito feliz por a ter conhecido, por termos ficado amigas, por tê-la presente em momentos importantes desse ano (e do próximo ^^). Te levo para a vida toda, xubs!

Hora de ir para casa. Chego em casa, abro o computador e vejo que meu pai me marcou em um comentário de uma foto. Vou ver o que é e fico em estado de choque. Ele, simplesmente, fez uma montagem com fotos de tudo o que eu gosto: Los Hermanos, Muse, Nutella, cupcakes, berinjela, picanha, Big Ben, São Paulo, Amelie Poulain, tulipas e até vagens, e colocou como capa de seu perfil no Facebook. É, esse foi o quarto choro do dia, descontrolado, tive que tomar um banho para ver se eu me acalmava. Te amo, Papis! Você é minha inspiração, meu mestre. Tudo o que eu aprendi com você nessa vida não está escrito s2

E mais um milhão de mensagens de amigos e familiares, fotos com homenagens, desenhos, lembretes. Tem como se sentir sozinha com todas essas demonstrações de afeto? Fui dormir me sentindo a pessoa mais feliz do mundo.