Um sábado do jeito que eu gosto

Como há muito não acontecia, eu tive nesse final de semana de bank holiday (o último antes do Natal) dois dias inteiros de folga. Claro que isso só foi possível porque a minha chefa viajou para a casa do irmão dela no interior. Sozinha em casa, sem compromisso e sem companhia disponível, decidi curtir um sábado gelado de sol do jeito que eu gosto: com coisas de Talita =)

Tudo começou na National Gallery, onde passei para pegar o ingresso de um tour especial que eu faria mais tarde. Mas, como o tour só começaria em uma hora e estava frio pra burro , decidi dar uma volta por ali, para dizer oi aos meus queridos amigos Caravaggio, Vermeer, Goya e Gainsborough. Sabe, isso é uma das coisas que eu mais gosto na Europa, a acessibilidade à arte, em qualquer hora que você quiser, de graça e em diversos cantos da cidade.

E fiquei ali, sentada, apreciando “The Taking of Christ” do Caravaggio. Ao meu lado, vejo um homem explicando algo para sua mulher em francês e, apesar de não entender seu idioma (por enquanto), entendo o que ele quer dizer. Sua mão faz o contorno do fundo escuro que envolve a cena – marca tão típica de Caravaggio e ele está explicando como a escuridão é harmoniosa ali, e como a luminosidade se faz presente apenas no centro da tela, nas cores vivas presentes nas vestimentas, nos rostos e da lâmpada que o personagem do canto segura (e leio que ele é um auto-retrato do próprio Caravaggio, e também descubro ali que seu primeiro nome é Michelangelo ^^). Eu sorrio, lembrando que esse é o tipo de coisa que o meu pai faria se estivesse ali comigo. E sinto uma falta tremenda dele, como sempre acontece quando vou à uma exposição de arte.

Maravilhada com tudo aquilo, saio e vejo um dia diferente. Ou talvez eu esteja diferente após aqueles longos minutos na presença do Caravaggio e das lembranças do meu pai. No caminho para o tour, vou fotografando as ruas cheias de prédios georgianos daquela região, como se eu nunca tivesse feito isso antes.

E chego no destino do tour, o prédio do governo da Irlanda, gabinete do Taoiseach – primeiro ministro. O prédio é lindo e protegido por um portão que está sempre fechado, com guardas e sua guarita gigantesca. Mas nesse dia aquelas portas se abriram para mim e me senti completamente privilegiada por estar ali =)

A guia começa contando a história do prédio, que foi iniciado pelo rei inglês Edward VII em 1904 com o objetivo de ser utilizado como sede do Royal College of Science, motivo pelo qual estátuas de cientistas famosos estão presentes na fachada. Mas, com a independência da Irlanda em 1922, os parlamentares cresceram o olho para o prédio e expulsaram os estudantes pouco a pouco e, finalmente, o prédio foi convertido apenas para uso governamental. Hoje em dia, funcionam por lá os seguintes departamentos: Department of the Taoiseach (primeiro ministro), Office of the General Attorney (o consultor do governo em matéria de leis), Department of Finance e Department of Public Expenditure and Reform.

Foi muito interessante descobrir como funciona de verdade o sistema de governo irlandês e, por incrível que pareça, ele é muito parecido com o inglês! O presidente da Irlanda é como a rainha da Inglaterra – uma figura pública, importante e respeitada, mas sem muito poder político. O primeiro ministro é o verdadeiro chefe político do país, que manda e desmanda. E os membros do parlamento são muito importantes também, divididos nas casas denominadas “Dáil Éireann” (Lower house) e “Seanad Éireann” (Upper house). Aliás, a guia contou um fato curioso sobre eles! A sala do primeiro ministro tem uma saída especial que dá em uma rua muito próxima a onde é o parlamento pois, caso o ministro seja convocado – um sino toca se isso acontecer – ele tem apenas dez minutos para comparecer lá, independente de qualquer compromisso que tenha! >.<

O tour é bem legal, no geral. Passamos por salas de reunião, escadarias, salas de prêmios e, o ponto alto, a sala do primeiro ministro, com sua mesa, seu telefone, sua poltrona, seu porta-canetas. Óbvio que só podemos acessar uma área reduzida lá dentro e existem guardas nos vigiando o tempo todo. Mas, mesmo assim, é muito impressionante.

Já que estava por ali e o sol estava quentinho, fui dar um passeio na Merrion Square, que eu sempre gostei e pouco visitei. E ela estava mais bonita que nunca! Algumas árvores mudando do verde para o vermelho e amarelo, outras apenas com meia dúzia de folhas marrons e o chão completamente forrado de um tapete macio e barulhento de folhas secas. A luz do sol batendo naquelas folhas amareladas na copa das árvores é um efeito maravilhoso de se ver!

E, então, sem procurar (como eu já havia feito antes, sem sucesso), encontrei a estátua do Oscar Wilde, famoso escritor irlandês e estudante ilustre do Trinity College, o gênio por trás da obra “O Retrato de Dorian Gray”, que eu tanto gosto. E ele, assim como eu e os demais por ali, estava aproveitando o sol quentinho naquele dia gelado ^^

Ainda fotografando a cidade como se eu fosse uma recém-chegada turista, resolvi passar no Temple Bar para comer alguma besteirinha no maravilhoso Food Market que eu já comentei por aqui. Optei por uma torta de frango, presunto e salsinha, de uma barraquinha de comida de fazenda que eu namorava há tempos! E a trilha sonora estava espetacular… O fato de sempre ter música rolando é uma das coisas mais legais do Temple Bar, seja uma moça com espanhola mandando ver no violão ou um cara parado na esquina, o maior vozeirão do mundo, mandando “Feeling Good” do Muse a plenos pulmões, o que me congelou a espinha.

O último compromisso do dia era super especial. Acontece que nesse final de semana rolava na cidade o “Bram Stoker Festival” por causa do Halloween, já que o Bram Stoker – famoso escritor irlandês, é ninguém menos que o autor do “Drácula”. Dentre diversos eventos espalhados pela cidade, eu escolhi um dos mais incríveis (na verdade, um dos únicos que ainda tinha vagas disponíveis =P), uma contação de trechos do livro e outras histórias de vampiros, na cripta medieval da Christ Church, minha igreja favorita de Dublin ^^

E lá chego eu, naquela cripta com cheiro de mofo, luz amarela, peças magníficas, e me aconchego junto às demais pessoas estranhas como eu, que estão desperdiçando a rara luz do sol para se enfiar em uma cripta e ouvir histórias de vampiro. E você percebe como o seu listening está bom quando você consegue entender tudo o que a mulher está lendo, mesmo se tratando de diálogos em uma obra escrita em 1897. Foi muito especial. Todas as pessoas mergulhavam em cada palavra, naquele cenário tão propício para aquela história, imaginando as cenas contadas. E está decidido, assim que eu voltar ao Brasil começo a ler esse livro, mesmo já tendo visto o filme milhares de vezes =)

Tomo o caminho da roça para o meu adorável bairro, no fim de um adorável dia frio e finalizo a noite com uma nada adorável pasta com molho branco e atum (é, cozinhar só para você é um desafio, já que a preguiça é mais forte que tudo!) e uma Belfast Ale, na companhia do meu namorado e conselheiro de viagens, me ajudando a resolver as buchas intituladas “Alemanha e Polônia” que eu acabei me enfiando =X

P.S. No domingo, organizei coisas pela manhã e fui almoçar com a Aline no apartamento dela. Como sempre, fizemos a deliciosa batata de forno que a mãe dela ensinou, com vinho e bolo de chocolate de sobremesa. Chegando em casa, após o conselho esperto do meu namorado, finalmente resolvi o dilema da viagem na Alemanha e Polônia e, mais tarde, passei o resto da noite na companhia dele, mesmo longe s2

P.S. E hoje, segunda-feira de bank holiday, fiquei de preguiça na cama até que a chefa voltou da viagem e, imediatamente, já comecei a trabalhar cuidando do meu pequeno, que levei para Howth, pegando FOUR BUBZEZ!!!!!, o que o deixou extremamente feliz (^^). No final da tarde (porque aqui se janta cedo), fomos jantar na casa da mamis da Mary Rose, a Rosemary (mesmo nome da minha mamis), com “chicken cassarole, potatos and brocolis” como prato principal e bolo de sobremesa. Foi muito legal, me senti como tendo um jantar na casa dos Dursleys (os tios do Harry Potter), com sua porcelana bonita, a manteiga na mesa, toalha de renda e licor para finalizar o jantar =)

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Arte dentro de arte, do jeito que eu gosto

Hello!

Esse sábado foi dedicado à arte, com visita a dois lugares que eu estava doida para conhecer aqui em Dublin: a National Gallery e o National Museum of Archaeology.

National Gallery: tamanho não é documento

A primeira impressão do prédio, inaugurado em 1864, é boa. Ele é moderno, bem diferente dos demais museus de pintura que já visitei na Europa. Ok, estou aqui para ser surpreendida. Chegando na entrada, a primeira decepção. Ah, uma parte do museu está fechado para reforma? Uhuu, todos os museus decidiram entrar em reforma bem no ano que visito Dublin. ¬¬

Mas ainda sobraram duas coleções para ver: Masterpieces of European Paintings e Irish Paintings. Descrevo a relação dos quadros que eu mais gostei – e o motivo – logo abaixo.

Portrait of Charles Coote – Joshua Reynolds

Eu não conhecia esse pintor, mas gostei do trabalho dele. É o tipo de pintura que eu mais gosto – extremamente realista, em que você quase consegue sentir a textura das roupas. Isso é arte para mim, é o que mais me fascina: técnica e perfeição.

The taking of Christ – Caravaggio

Esse é o tesouro da exposição, o quadro mais famoso. Além de ser uma cena impressionante – o beijo de Judas em Cristo e a redenção dele ao seu destino, gosto do estilo do Caravaggio: quadros escuros, meio sombrios, expressões dramáticas.

Portrait of Sir John and Lady Clerk – Henry Raeburn

Além de ser um quadro bonito, o que eu mais gostei foi ele ser divido em dois planos bem delimitados. No fundo, o cenário. Na frente, o casal. Na foto não dá para ver muito bem, mas a impressão que eu tive foi de um efeito 3D =)

A lady writing a letter – Vermeer

Esse foi o momento mais emocionante para mim. Não por ser um quadro famoso nem nada, aliás, eu nem sabia da existência dele. Mas a experiência de vê-lo foi incrível… Estou andando pelo corredor e, enquanto aprecio o quadro anterior a ele, o vejo de relance. Na hora, me vem um nome na cabeça, sem pensar. Veermer. E eu estava certa, era um Veermer. Senti uma felicidade absurda, simplesmente por conseguir reconhecer um pintor que eu admiro pelo traço e cores dele. Isso não tem preço =)

The cottage girl – Gainsborough

Desde que o meu pai me apresentou o trabalho desse pintor, e eu pude conferir trabalhos dele no Louvre e na National Gallery de Londres, fiquei encantada! Neste quadro, gostei da expressão e delicadeza da menina, em contraste com a natureza ao fundo.

Donã Antonia Zárate – Goya

Os retratos de Goya são incríveis, reais, emocionantes! Olha a expressão de seriedade da Donã Antonia, em contraste com seu rosto angelical e seus trajes rendados e românticos. Sinto que ela é viva, é real. Que vai abanar o leque a qualquer momento.

Still life with a mandolin – Picasso

Picasso é sempre picasso, e você reconhece de longe. Neste quadro em específico, gostei das texturas e grafismos que ele aplica nos diversos elementos que compõe a pintura. Parece que tudo está decorado com papel de parede. É divertido =)

Rooftops in Paris – Van Gogh

Porque eu gosto de Paris, gosto das pinceladas e dos céus de Van Gogh. Não dá para ver direito mas, neste quadro, aqueles espirais tão característicos dele marcam presença no céu de Paris.

Julie Bonaparte with her daughters – François-Pascal-Simon Gerard

Outro desconhecido para mim. Mas o que me chamou a atenção foi a beleza das crianças que ele pintou. Eu não sei se elas eram bonitas assim na vida real, mas ele as eternizou como bonequinhas de porcelana *__*

Funeral of Patroclus – David

Esse também foi um momento especial. Me chega a Melissa (minha colega de classe e vizinha, economista que estudou história da arte em um semestre) e diz: “Olha que legal,  ele dá mais destaque em cores para a cena do meio – a mais importante – e o resto, mais escuro, é pano de fundo”. E eu digo com o maior orgulho: “David é assim. Meu pai me mostrou outras pinturas e ele sempre segue o mesmo estilo”. =)

Man writing a letter – Gabriel Metsue

Que quadro lindo. Dá para sentir a textura do cabelo do homem. Dá para sentir as dobras da camisa dele. Dá vontade de esticar o tapete enrugado. Não, não pode ser uma pintura apenas. Deve ser uma foto…

About to write a letter – W. B. Yeats

Primeiro que eu nem sabia que o Yeats também era pintor. Segundo que, pelo amor de Deus, olha esse quadro. Mexeu comigo por ser expressivo, meio doentio e confuso.

O’Connell Bridge – Flora H. Mitchell

A pintura não tem nada de mais, mas ela retratou uma paisagem que eu adoro: ver as luzes refletidas no Rio Liffey, olhando da O’Connell Bridge. Sempre me encanta ^^

National Museum of Archaelogy: um labirinto do passado

O prédio que abriga o museu foi construído em 1880 e é lindo. Você não sabe se olha para a arquitetura ou para os objetos expostos. Mas é um labirinto, o nosso grupo de 4 pessoas se perdeu diversas vezes. “Hey Li, você viu o Jésus por aí?” “Sim, trombei com ele ali na sessão Viking, mas o perdi quando entrei na sessão Egípcia”. o.O

A exposição é dividida em:

Irlanda Pré-Histórica
As primeiras lanças, caldeirões e muitos, muitos, muitos vasos de cerâmica. Enjoa até. O que eu mais gostei foi esse barco aqui, gigantesco e muito antigo, com 4.500 anos de idade.

Ouro da Irlanda
Colares, pulseiras, brincos e acessórios para roupas, em puro (e muito) ouro. A exposição mostra quem usava cada peça e porque. Sabe, eu acho que nunca tinha percebido com o ouro é lindo >.<

O tesouro
Coleção de peças religiosas da Irlanda, da época pagã à Viking, terminando na era Cristã. Os pontos altos são o Broche de Tara, representando o paganismo e a Cruz de Cong, representando o cristianismo.

Irlanda Viking
Para quem passou uma tarde em um museu divertido e instrutivo que contava tudo sobre os Vikings, nada impressiona mais. Mas foi engraçado quando entrei nessa sessão, uma sala escura. Estava tocando uma música meio macabra e eu dou de cara com dois bonecos vestidos de vikings, me olhando. Aham, eu levei um puta susto >.<

Egito Antigo
E para quem já visitou o British Museum, com a impressionante coleção de arte egípcia que eles tem, fica difícil agradar também. Mas gostei muito das joias em lápis-lazuli, a famosa pedra preciosa muito utilizada no Egito Antigo, coisa que o British não tem.

Bonus: The Faddan Moore Psalter Book
Sem aviso, me vejo em uma sala escura, com um vídeo interessante contando a descoberta de uma bíblia muito antiga que foi descoberta enterrada em um pântano. Eles explicam que o povo tinha esse costume – de enterrar as coisas – mas não sabem bem o motivo. É fascinante ver o processo de recuperação da bíblia, que estava em um estado deplorável quando foi encontrada!

Depois disso tudo, não sobrou muita energia, sabe? Mas ainda rolou balada com a sul-coreana doida que dorme na cama ao lado da minha. E rolou gig da russa talentosa que estuda na minha sala. E rolou brasileiras e russas doidas correndo no meio da rua para fazer o frio passar.

Final de semana perfeito =)

P.S.: Papis Querido, nada disso seria possível sem você. Afinal, quem sempre me mostrou Goya, Monet, Picasso, Ingres, David, Vermeer, Gainsborough, Renoir, Da Vinci, Michelangelo, Rafael, Tarsila, Portinari, Rubens, Gauguin, Degas, Manet, Van Gogh, Caravaggio, foi você. Se hoje eu consigo reconhecer Vermeer e David, foi porque você me ensinou. Meu orgulho s2

P.S.: Estou há mais de 3 horas escrevendo esse post. Obrigada.

Yvidemsya!
(ubídência – “até mais” em russo)

Recapitulando

Hello!

Aqui estou eu, ouvindo Muse (*___*), jantada (arroz, feijão, purê de batata e “molhinho” de vagem – como é dito lá em casa #MineirosFellings) e tentando entender o que eu fiz com os meus últimos dias, já que não consegui postar nada desde domingo. Bom, vamos recapitular então…

Segunda-feira: a melhor notícia do mundo

Chegou a hora de revelar todo o mistério dos últimos posts: sim, eu fui chamada para uma entrevista de emprego. Desde que pensei nesse intercâmbio, minha ideia era trabalhar como babá ou, como eles chamam por aqui, Au Pair. E como eu consegui? Fiz um anúncio em sites de classificados de emprego, bem diferente dos estão por lá. Poxa, eu sou publicitária e, se eu não conseguisse me diferenciar dos meus concorrentes, então não serviria para nada! E como foi a entrevista? Adorei o casal e as crianças (trigêmeos de 10 meses e mais um de 2 anos), o horário é exatamente o que eu preciso, o salário não é incrível, mas paga as contas. E o que aconteceu depois? Minha patroa me ligou e disse que ficaria “delighted” se eu aceitasse trabalhar para eles. Melhor, impossível =)

Terça-feira: a primeira cabulada a gente nunca esquece

O dia não estava para escola, então resolvemos aproveitar para passear por aí. A primeira parada foi o Bank of Ireland, um edifício majestoso localizdo no centro. Ele foi projetado para ser o parlamento irlandês, em 1739. A curiosidade é que esse foi o primeiro prédio a ser construído para este fim, em toda a Europa. Porém, alegria de irlandês sob domínio inglês dura pouco e o parlamento foi dissolvido em 1800 e os assuntos do país voltaram a ser decididos por Westminster, em Londres. Então o Bank of Ireland, um dos maiores do país, comprou o prédio para criar sua mais bonita agência. Quem não queria ter uma conta lá, hein?

Entrada principal

Mas eles preservaram a House of Lords, que é aberta para visitação ao público. A sala é magnífica. Poxa, porque esses caras tinham mania de fazer coisas tão estupendas assim? Meu coração não aguenta! Um guia sempre fica por lá e ele ficou surpreso quando eu comecei a fazer perguntas sobre o funcionamento do parlamento. E mais surpreso ainda quando descobriu que eu sou brasileira: “Não vejo muitos brasileiros por aqui, sabe?”. Sei =)

Lustre de cristal *___*

Depois, decidi passear pela Grafton Street, uma das mais populares ruas de compras em Dublin, com lojas de grife, cafés, restaurantes e o lindo shopping Stephen Green no final. A loja mais famosa de lá é a Brown Thomas e seus artigos de luxo, que estudantes-falidos-como-eu não podem nem olhar.

Intrerior do Stephen's Green

O que eu mais gosto na Grafton Street é o barulho. Ao caminhar por ela, você ouve pessoas conversando em diversos idiomas diferentes e ouve música em toda a sua extensão, com os artistas de rua que dão a graça por lá. Muito legal =)

Outra atração da Grafton é a estátua da Molly Malone. Ela foi inspirada em uma canção, que é considerado como o hino não-oficial da cidade, e que conta a história de uma bela mulher que vendia peixes nas ruas de Dublin, mas que morreu jovem de uma forte febre. Não existe prova de que a tal Molly Malone realmente existiu, mas o governo encontrou uma que poderia ser ela e que morreu em 13 de junho de 1699, então proclamou esse dia como “Molly Malone Day” e construiu uma estátua em homenagem a ela. Legal, eu curto essa historia. Olha só como é bonitinha a música =)


Depois disso, ainda fomos para a National Library, prédio lindo que abriga um acervo com as primeiras edições dos livros dos principais escritores do país, além de uma cópia de quase todo livro já publicado na Irlanda. O mais impressionante do prédio é a Sala de Leitura, que tem mesinhas gastas e luminárias verdes, como era antigamente. É uma sala circular, enorme, silenciosa, com livros velhos, novos, curiosos. A biblioteca não realiza empréstimos, você pode apenas consultar os livros por lá.


Quarta-feira: legalizado as coisas

Finalmente conseguimos o nosso tão sonhado GNIB (Garda National Immigration Bureau)! Eu ainda não comentei aqui, mas o processo é meio chatinho e demorou exatos 23 dias para ser concluído.

Primeiro, você tira o PPS – como um CPF da Irlanda. E chega o comprovante na sua casa, após 10 dias. Depois, com o PPS, você abre a conta no banco. E chega a senha na sua casa, após 3 dias e o cartão após 5 dias. Depois, você deposita os 3.000 euros e pede o statement. E ele chega na sua casa, após 3 dias. Depois, com o PPS, o statement e o passaporte, você vai até a Garda, solicita o GNIB, paga 150 euros e sai de lá com a carteirinha, dizendo quando você legalmente pode viver, estudar e trabalhar por aqui. Amazing =)

Estava um dia bonito, então resolvemos andar e descobrir mais algumas coisas. E logo vimos a Custom House, um enorme prédio que sempre abrigou órgãos do governo.

Depois, The Famine Statues, um monumento em homenagem a todos os irlandeses que morreram no período conhecido como a “Grande Fome”, caracterizado pela perda consecutiva de 3 safras de batata, por causa de uma praga, o que causou a morte de um milhão de pessoas morreu e a imigração de mais dois milhões, principalmente para os Estados Unidos.


E por fim, conhecemos a Samuel Beckett Bridge, uma ponte estaiada, construída em homenagem ao escritor irlandês Samuel Beckett, ganhador do Nobel de literatura. Por lá, descobrimos uma Dublin diferente da que estamos acostumadas: prédios modernos, de vidro, pessoas engravatadas. Como uma cidade pode mudar tanto, em poucos metros? Engraçado =)


Quinta-feira: último dia de vagabundagem

E hoje, nada de mais, pois resolvi aproveitar o meu último dia de vagabundagem, já que começo a trabalhar na próxima semana. Fizemos almoço, limpamos a cozinha, dormi à tarde e aqui estou, atualizando o blog =)

Amanhã, grandes acontecimentos à vista! Primeira visita para fora de Dublin programada (com 11 km de distância) e aniversário de namoro com o meu querido, em que faremos uma comemoração diferente (com mais de 9 mil km de distância).

See you!

O quarteirão da elegância

Hello!
Como estão?

Por aqui, tudo indo bem! Estamos nos adaptando maravilhosamente bem na casa nova, cozinhando, lavando roupa, estudando, conhecendo lugares, quase tirando o visto. Tudo bem graças a Deus, às orações dos meus avós e ao pensamento positivo e força de vocês =)

Hoje, depois de alguns dias sem conhecer nada da cidade, visitamos dois lugares muito legais, em uma região que já foi a mais nobre de Dublin, residência da alta sociedade, políticos e escritores. Com vocês, a região da Merrion Square!

Fitzwilliam House: uma viagem no tempo

O século 18 foi a Era da Elegância, quando os ricos da Irlanda, não querendo parecer os parentes pobres da Inglaterra, fizeram de Dublin uma das cidades mais elegantes da Europa. Todos os ricos construíram suas casas na mesma região, o que fez (e faz) com que ela seja extremamente charmosa.

O padrão das casas era sempre o mesmo, os chamados terraços georgianos. Na década de 60, dezesseis dessas lindas casas foram demolidas para que a empresa de eletricidade de Dublin construísse a sua sede. A indignação pública foi tamanha que, para tentar remendar o estrago, a empresa restaurou uma das casas e criou um museu, o famoso número 29 da Fitzwilliam Street Lower. Ainda bem que eles fizeram isso =)

O museu é a portinha preta =)

A casa é maravilhosa. Por fora, aquela famosa portinha colorida, com uma detalhada clarabóia e aldrava de metal. No andar inferior (abaixo do nível da rua), fica a recepção do museu, loja e as primeiras partes da exposição, como cozinha, quarto da empregada, despensa de alimentos. No primeiro andar (nível da rua), temos a sala de jantar – que é o maior ambiente da casa – com os móveis, louças, lustres e tapetes. No segundo andar, temos a sala de visitas, com piano, mesa de jogos e livros – um ambiente destinado a diversão e recepção de convidados. No terceiro andar, temos o aposento do casal – cama, banheiro (sem chuveiro, claro), sala de vestir. No quarto andar, temos o quarto da governanta e o das crianças, com casinhas de bonecas do século 18 #Morri.

Anexo do quarto do casal

Sala de estar

 

Cozinha

Casinhas de bonecas *____________________*

Fatos curiosos

– Cada cômodo da casa tinha um puxador de tecido perto da parede, que era ligado a sinos na cozinha. Assim, quando a dona da casa queria falar com a empregada, acionava o sino e a ela sabia em que cômodo deveria ir.

– Quem já foi em museus antigos deve ter percebido como as camas são curtas. Descobri hoje que isso se deve ao fato de que as pessoas dormiam meio sentadas, pois tinham problemas de coluna!

– Os ratos podem escalar e fazer buracos nas paredes, mas não podem pular. Por esse motivo, as comidas mais preciosas (ovos, queijos, carnes, pão) eram armazenadas em uma tábua suspensa do teto, na despensa.

– As mulheres acreditavam que ficar muito tempo perto da lareira prejudicava a pele de seus rostos. Assim, elas tinham uma espécie de protetor contra o calor – meio que uma pá ao contrário, com desenhos e bordados – que ficava apoiado no chão, perto de onde elas estavam sentadas.

 

Merrion Square: onde é sempre primavera

De lá, fomos para a Merrion Square, uma das praças mais charmosas de Dublin. Naquela época as casas não tinham jardim mas, como estavam localizadas próximos de belíssimas praças, elas acabavam sendo utilizadas como jardins e, em certa época, passaram a ser privadas para os moradores da região.


A Merrion Square foi projetada em 1762 por John Ensor. Ela fica rodeada por inúmeras casas georgianas (hoje sendo utilizadas como sede de empresas e escolas, na sua maioria) e imponentes museus (Natural History, National Gallery).

Lá dentro, tudo é uma graça. Eu não sei se é sempre assim ou se é a primavera que enche os meus olhos, mas me senti em um bosque de conto de fadas lá dentro! Canteiros de flores, árvores cheia de flores cor-de-rosa (as minhas favoritas), mamães com crianças, casais apaixonados. Apaixonante =)

Cores, aromas, flores

 

A minha favorita *_____*

Tem coisa mais romântica do que essa flor?

E foi isso por hoje. O final de semana promete passeios memoráveis, vamos ver se dá certo.

P.S.: Tenho uma novidade, mas só vou contar se der certo. Sei lá, não quero criar muitas expectativas sobre isso.

P.S.: Como eu penso em algumas pessoas visitando todos esses lugares incríveis. Família, amigos, namorado. Vocês estão comigo o tempo todo s2

Até mais!

Dos acontecimentos recentes

Hello, guys!

Mais uma vez, não cumpri o deadline dos posts. Mancada, eu sei. Mas vamos lá, vou me redimir agora com um relato completo dos acontecimentos dos últimos dias \o/

Quarta-feira, dia das surpresas boas

O dia começou com uma coisa que surpreendeu todo mundo na cidade: um belo sol, meio tímido, mas quentinho! Isso, dizem os nativos, é muito raro de acontecer. Decidimos então que estava na hora de conhecer outra famosa atração de Dublin: o St. Stephen’s Green Park.

Até 1664, quando finalmente foi murado, sua área era utilizada como pasto. No final do século XVIII, o entorno do parque se transformou em uma área muito valorizada, residência da alta sociedade de Dublin. Nesta época, foi decidido que o parque seria restrito para os moradores da região, um absurdo. Somente em 1877 é que o acesso ao público foi novamente liberado, graças ao apoio de ninguém menos que um dos membros da família Guinness, que arcou com os custos de redesenho do parque, que é mantido até hoje (sou fã desses caras).

O lugar é lindo e o legal é que a prefeitura faz o seu papel. Mal entramos na primavera e o parque já está todo florido, com flores recém-plantadas. Sensacional. Lá, você pode deitar na grama e ler um livro, pode sentar na grama e almoçar, pode deitar na grama e tirar um cochilo. Tem banquinhos e coretos também, mas o pessoal gosta mesmo é da grama, viu?

No meio do parque tem um lago maravilhoso, com milhares de patos, cisnes, pombas e outros pássaros que eu não sei identificar. E eles se deixam fotografar, filmar, alimentar, bem de pertinho. E eles voam em cima de você, se você der pãozinho. Sim, quase fomos atacadas >.<


Depois, fomos para o Natural History Museum. Eu nunca iria em museu desses (talvez apenas no de NY, que fiquei encantada após assistir o filme “Uma noite no Museu”). Mas, como estamos morando aqui e a entrada é de graça, decidimos ir. Ainda bem =)

O Museu funciona desde 1857, em um edifício pequeno, mas charmoso. O andar térreo abriga uma exposição com animais típicos da Irlanda (pássaros, mamíferos, peixes, insetos). Já o andar superior abriga uma exposição de animais do mundo (elefante, girafa, leões, hipopótamos absurdamente gigantes).

Bom, eu achei meio nojento ver alguns daqueles animais (em especial os insetos, as borboletas, os ratos e os frutos do mar). E achei meio triste ver aqueles animais assim, parados, em poses que os caras quisessem que eles ficassem (atacando, alimentando os filhotes, brigando), eternamente. Mas achei legal. Eu não me lembro de ter visto uma girafa, zebra ou elefante de perto, nas minhas idas ao zoológico na infância. Então, valeu para “conhecer” os bichinhos.

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Quinta-feira de cinzas

O dia começou com uma triste constatação, que me persegue até agora: o CAE (Certificate in Advanced English – Cambridge University) é um sonho distante para mim. Tivemos a prova e foi devastadora! Começou com um teste geral de 20 minutos, para eles saberem se vale a pena corrigir o restante da sua prova ou não. Logo depois, um agradável teste de 1 hora de Reading, com terríveis exercícios para ordenar parágrafos de textos. Como se não bastasse, mais 1 hora de General English, onde você tem a certeza de que deveria estar no nível básico e não no avançado. E, para finalizar, 40 minutos de Listening que, quando você menos percebe, acabou e você entendeu apenas 7,3% do que os diálogos diziam. É, bora estudar filha…

Para me animar um pouco, fomos conhecer mais de Dublin, um lugar que eu queria há tempos: o museu dentro do General Post Office, a sede dos correios da Irlanda. O prédio, além de possuir uma bela arquitetura e um porte magnífico (que se vê de longe), é ponto de encontro da galera (ah, nos encontramos amanhã às 14h no GPO, ok?) e ainda foi palco de um dos acontecimentos mais importantes da história da Irlanda Moderna: o Levante da Páscoa de 1916.

Esse foi o primeiro movimento mais concreto para a independência da Irlanda. Neste dia, os rebeldes tomaram o GPO e um dos líderes do movimento, Patrick Pearse, leu a Proclamação da República da Irlanda na escadaria. Os rebeldes ficaram por sete dias no GPO, mas o bombardeio do exército britânico os forçou a sair. Sim, o prédio ficou bem destruído. Sim, os 14 líderes do movimento foram presos, espancados e fuzilados. Mas foi ali que tudo começou. Depois disso, os caras viraram mártires e a população começou a apoiar mais a causa da independência, que veio finalmente em 1921.

Proclamação da República da Irlanda


Sexta-feira, pré St. Patricks Day

A sexta-feira começou chuvosa. E a preguiça de sair da cama reinava aqui em Woodfarm Acres, Palmerstown. Após o nosso habitual pão com Nutella no café da manhã, decidimos sair para comemorar o começo do St. Patrick’s Weekend (porque tem programação para todo o final de semana).

Fomos ao Irish Craft Beer, um festival de cerveja, com exposição de cervejeiros aqui da Irlanda, não tão famosos e talentosos quanto o Artur Guinness, mas bons também. Bebemos, comemos crepe de Nutella (é, o vício está foda) e conversamos com pessoas na mesa.

E depois resolvemos que era hora do Pub. Mas não queríamos Pubs tradicionais, que tocam aquelas músicas irlandesas (que eu adoro, vou deixar claro), mas sim algum que tocasse rock ‘n roll, poxa! E cadê que achamos? O Tony, nosso host-brother, fez uma lista de Pubs não turísticos pra gente, mas esquecemos em casa.

Por fim, acabamos em uma rua onde uma banda estava se apresentando ao ar livre (e frio), em comemoração ao St. Patrick’s Pre-Day. Pegamos os pints em um Pub e saímos para a rua, como todo mundo, para ver o show. Os caras mandam muito bem. Tem banjo, tem gaita, tem violoncelo. E o vocalista é muito doido. Adorei o som deles! Olha como eles são legais:


Cantamos, dançamos, bebemos. E, quando o show acabou, estávamos com dois copos na mão, longe do Pub e sem ninguém por perto. Pensamos: “A nossa honestidade é tanta assim?”. Decidimos que não e agora dois lindos copos de Pint (Guinness para mim, Heineken para ela) brilham em nossas prateleiras. ^^

Trançando as pernas e morrendo de fome, decidimos que era hora de passar no supermercado e abastecer as nossas reservas de comida, até o dia da mudança para o apartamento (nos próximos dias, a comida é por nossa conta – nada de jantinha da host-mother). Ótimo, tudo baratinho. Caixa self-service, super moderno. Mas esquecemos a sacola de pano, erro estúpido. Solução? Sair com os braços cheios de leite, macarrão, molho bolonhesa, guarda-chuva e Nutella pelas ruas-lotadas-de-pessoas-afora. Hilário, para não dizer humilhante =P

E foi isso.

Amanhã, o dia principal do St. Patrick’s Weekend. Chapéu verde comprado, unhas pintadas, despertador programado.

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See you!

A universidade mais rica do mundo

Olá!

Estou atrasada, eu sei. Mas não é fácil escrever tudo isso, sabe? Eu sei que exagero, mas eu gosto assim e acho que vocês também =)

O passeio de ontem foi cinco estrelas, pois estamos falando de uma das maiores e mais históricas atrações de Dublin. Sim senhores, com vocês, a Trinity College! Já havíamos passado por lá para fazer a carteirinha de estudante, mas naquele esquema de olhar sem realmente ver. Posso dizer então que a surpresa aconteceu do mesmo jeito, como se fosse a primeira vez =)

Entrada principal

Estamos falando da universidade mais antiga e com o melhor nível de ensino da Irlanda, da 65ᵃ melhor universidade do mundo e 21ᵃ melhor universidade da Europa. Também, ninguém menos que Bram Stoker (sim, o do Drácula mesmo – que é irlandês, aliás), Oscar Wilde (s2), Samuel Becket (ganhador do Nobel de literatura) e diversos políticos estudaram por lá.

Pátio central

A universidade foi fundada em 1592 pela rainha Elizabeth I (filha do Henrique VIII, que já comentei por aqui), no local de um mosteiro agostiniano. No começo, ocupava apenas um pequeno espaço mas, como o passar do tempo, parceiros foram surgindo, os cursos foram sendo formatados, os livros para a biblioteca foram sendo adquiridos e sua fama foi surgindo.

Campanário

No começo, apenas os alunos de famílias protestantes eram aceitos. Mas, a partir de 1873, os católicos também passaram a frequentar a universidade. Mas, até então, só os homens podiam estudar lá, vê se pode? Foi somente em 1904 que as mulheres começaram a ser aceitas.

Estátuas de homens importantes para a universidade

Hoje em dia, a universidade conta com três faculdades principais: 1) Faculdade de Artes, Humanidades e Ciências Sociais; 2) Faculdade de Engenharia, Matemática e Ciências; 3) Faculdade de Ciências da Saúde. Dentro delas, estão divididos os inúmeros cursos de graduação e pós-graduação. Imagina, ter um diploma da Trinity? #Morri

O campus é MARAVILHOSO! Além de prédios grandes, históricos, de belíssima arquitetura e jardins impecáveis, o ambiente é calmo, alegre, cheio de pessoas (estudantes, professores, turistas, grupo de crianças em excursão) passeando, almoçando nos jardins, conversando, fotografando e até fazendo acrobacias.

=D

Infelizmente, quase todos os prédios são fechados para visitação ao público, pois poderia atrapalhar o funcionamento da universidade. Então fica a vontade de conhecer o que está lá dentro e se imaginar ali um dia, lendo o Retrato de Dorian Gray e se emocionando ao pensar que o cara que escreveu o livro que você tanto gosta estudou ali.

Mas eu disse quase todos, certo? Sim, tem um muito especial é aberto ao público. E, eu não sei o que tem nos outros, mas acho difícil que eles sejam mais valiosos do que esse que eu visitei. Estou falando da Old Library! Como o próprio nome diz, é uma biblioteca antiga. Quem me conhece, sabe que eu sou fascinada por bibliotecas e por coisas antigas. Ok, eu já estaria satisfeita só com isso. Mas essa não é uma biblioteca normal, ah não. Uma de suas salas armazena o Book of Kells (manuscrito medieval) e sua sala principal, o Long Room, é uma das coisas mais fascinantes que já vi na vida.

A exposição começa com a sala do Book of Kells. Ele é um manuscrito medieval, feito por monges (4 escribas e 3 artistas, ou seja, feito a 7 mãos!) por volta do ano 800, riquíssimo em iluminuras, escrito em latim e que contém os quatro evangelhos do Novo Testamento, sobre a vida de Cristo. Ele não foi feito para ser usado em leituras do dia a dia, apenas em cerimônias e ocasiões muito especiais. Em toda a sua cronologia, ele foi começado, terminado, roubado, recuperado, ficou desaparecido, foi encontrado e, finalmente, foi devidamente armazenado. Em virtude da sua grande beleza artística e da excelente técnica de seu acabamento, ele é considerado um dos mais importantes vestígios da arte religiosa medieval. Olha só que tesouro? *____*

A página mais elaborada do livro, parte do evangelho de St. Matthew

A exposição segue essa lógica: 1) contextualização da época (primeiros contatos daquele povo pagão que aqui vivia com o Cristianismo); 2) como era o trabalho dos monges (as missões que precisavam fazer, as cerimônias, em qualquer hora do dia e da noite); 3) manuscritos similares (Book of Mulling, Book of Oimma – este último com uma perfeição que eu não consigo entender); 4) do que eles eram feitos (de pele de bezerro , que era imersa em excremento e depois raspada com uma faca para retirar os pelos e, depois de seca, era dividida em duas páginas ou do latim bifolia); 5) com o que eles escreviam (penas de ganso ou cisne, gigantescas, além de compassos para ajudar nos desenhos); 6) do que eram feitas as tintas (pedras, plantas, cascas de árvores); 7) como os monges escreviam e desenhavam (os monges escribas escreviam, os monges aristas desenhavam); 8) como era o acabamento (com madeira, pele de bezerro, linhas grossas); 9) como eles faziam como erravam (se a página estivesse errada, desenhavam cruzes nela e, se errassem apenas uma palavra ou outra no texto, faziam um símbolo indicando que era um erro). E finalmente, em uma sala especial, temos o Book of Kells.

Lá, temos dois volumes do Book of Kells abertos (são quatro ao todo): um com o evangelho de St. Matthew (com o retrato dele em uma página – folio 28v e Liber generationis, palavras de abertura de seu evangelho em outra página – folio 29r) e outro com textos – Folios 145v-146r – ‘A prophet is not without honour, but in his own country’).

St. Matthew

Olha como as letras eram decoradas!

O tempo todo você se pergunta como esses caras conseguiam fazer isso, com tão poucos recursos. Cara, eles escreveram o livro a mão, que é enorme! Imagina quanto tempo levaram? E ainda decoraram tudo, com letras rebuscadas, iluminuras, cheias de significados. Nada está ali por acaso, tudo quer dizer alguma coisa. Sensacional.

Agora, para falar do Long Room, vou precisar descrever exatamente o que senti e pensei, para que vocês possam ter uma noção da grandiosidade do que estou falando.

E lá vai a Talita subindo a escadaria que dá acesso ao Long Room. No topo, ela vê uma placa dizendo que, excepcionalmente hoje, poderá ver de perto o trabalho de restauração dos livros antigos. Ela pensa: “Uau, sempre quis ver algo assim!”. E lá estão as moças, limpando os livros com pincéis e luvas roxas. Ela pensa: “Nossa, acho que eu ia tremer só de segurar um livro tão valioso assim… Caramba, que curso será que ela fez na faculdade? Será que estudou aqui? Poxa, deve ser tão legal. Acho que eu gostaria de trabalhar com isso. Será que estou na área errada? Será que…”. E Talita é chamada de volta à realidade por Aline, que sensatamente lembra que ainda temos muito o que ver, antes do espaço fechar. Ok.

Olhando para o lado, Talita vê os painéis de uma exposição temporária sobre a França de Louis XIV, feita com gravuras e ilustrações dos livros que estão expostos no Long Room. Ela pensa: “Hum, eu adoro a França e todos os Louis! Que legal, vou prestar bastante atenção. Será que foi o Louis XIV que fundou Versailles? Porque eu lembro que tinha uma estátua dele na entrada de Versailles… Vou pesquisar isso depois.”.

Enquanto pensa com seus botões e olha os painéis ao seu lado, Talita não percebe que entrou finalmente no Long Room. Só quando ela ouve os “ohhhh” das pessoas ao seu lado e sente um aroma doce, amadeirado, empoeirado, é que ela olha para a frente. Puta que pariu. Talita para e não consegue pensar em mais nada. Nada. Ela só olha para aquele ambiente enorme (mede 65 metros de ponta a ponta), com todos aqueles livros velhos (mais de 200 mil exemplares), todos aqueles bustos entre as prateleiras (grandes filósofos e escritores da humanidade – e o primeiro é logo o Shakespeare *____* – como se fossem os guardiões daqueles tesouros), inscrições em latim por todo o lado e aquele teto de madeira, completamente arqueado.

Foi exatamente isso que eu vi *_________*

E eu não cansava de olhar para a frente, para gravar todos os detalhes na minha memória. Eu poderia ficar muito tempo ali, só olhando para aquela cena… Mas tinha mais a ser visto por ali: uma das poucas cópias que sobreviveram dos cartazes da primeira tentativa de Proclamação de Independência da Irlanda, com um texto apaixonante e a harpa mais antiga já encontrada na Irlanda. Além de todas as gravuras de Louis XIV e Versailles, que quase me trazem lágrimas aos olhos, por ver o que eu eu tanto amei na França retratado assim, em um livro feito muuuuuuito antes do meu tempo.

Olha, essa foi uma das melhores experiências da minha vida. Como eu me senti bem ali. Me senti em casa, com tudo o que eu gosto me rodeando. E eu posso dizer que essa foi a primeira grande surpresa que Dublin me proporcionou, sem pressa, em um belo dia após a aula de inglês. Ah, Dublin…

P.S.: Me desculpem pela demora em postar. Eu pretendo fazer isso todos os dias mas, enquanto não tenho uma rotina muito definida, fica difícil. Mas, em muito breve, chegarei lá. A boa notícia é que fechamos o apartamento (o primeiro que visitamos, da Yujin). O outro que comentei era bom também, mas não deu certo, a pessoa desistiu de sair. Mudança programada para terça-feira que vem =)

P.S.: Momentos de desespero e angústias nesses últimos dias, quando estava difícil resolver a questão do apartamento e com tudo o que eu ouvi sobre como é difícil arrumar emprego por aqui. Mas sabe de uma coisa? Eu vou ver tudo cor de rosa, mesmo assim. Obrigada, Mamis da minha vida, pelo livro cor de rosa e por essas constatações =)

P.S.: As fotos internas deste post não são minhas, pois é proibido tirar fotos lá dentro. Obrigada, Google Images.